terça-feira, 31 de março de 2026

ANTES DE TUDO

                                   



O Nordeste monotemático, restrito à seca, à violência e ao fanatismo, é a base de Octávio Santiago para mostrar como se construiu a imagem social da região. O livro, “Só sei que foi assim”, é a transcrição da tese acadêmica do autor que buscou as pistas, evidências e demonstrativos de como foi erigida uma visão preconceituosa da região e de seus habitantes, ou dos que dela vieram, muitas vezes com a concordância manipulada dos próprios originários dos nove estados que a compõem.

Literatura, filmes, poder político, jornalismo, Canudos, Euclides da Cunha, o jornal O Estado de São Paulo, Glauber, Graciliano, embranquecimento, obras da “emergência”, o termo “paraíba”, tudo passa na avenida dessa recuperação e encontra seu lugar no edifício simbólico, mas absolutamente constante, dessa visão redutora de uma grande extensão do país. Importante lembrar que não há nem de longe o menor sinal de cancelamento, que veta obras e autores e nisso extingue no grito a discussão. Octávio Santiago inscreve as grandes representações artísticas da região, da estatura de “Vidas Secas” pra frente, como indiscutíveis relevâncias estéticas, ainda que, justamente por tão marcantes, reforçarem indiretamente a construção dessa imagem social de que nós, nordestinos, parece que nunca conseguiremos nos livrar. E o que fazemos, como autênticos brasileiros?, invertemos o jogo e tiramos o proveito desses, digamos, gracejos (tantas vezes soam apenas como isso) para nos afirmar na contramão do aceito, do elogiável, do esperado.  Nós, nordestinos, não somos exatamente o que se espera. Não é por a gente não ficar chorando o tempo todo essa mágoa que não notamos. A gente se insurge à nossa maneira, como quando reforçamos o sotaque quando ele causa algum estranhamento a alguém por perto.

Na página 156 do livro, um trecho sobre a reação de Raquel de Queiroz à forma como a mídia tratava a seca de 83-84 me lembrou um episódio pessoal. O livro trata aqui, por exemplo, das reportagens do “Fantástico” que fizeram muito sucesso na época e entraram para o livro dos grandes momentos do telejornalismo brasileiro: o repórter chorando diante da criança desnutrida, no casebre da família de flagelados, que brincava com ossos de animais como se fossem o gado de uma fazenda infantil imaginária. Raquel reclama que o jornalismo da época – e o jornalismo da época fazia muito isso, destaque-se – tirava do ângulo das câmeras qualquer elemento que contrariasse a imagem de uma seca rigorosa e de suas vítimas terminais.

A seca de 83-84 foi realmente terrível, não é essa a questão. Mas a gente sabe como se dá maior ênfase ao que, de tão gritante, nem precisa de reforço. Assim, lembra a autora de “O Quinze”, nos anos 80 se evitava, numa reportagem de TV ou fotografia de jornal, qualquer imagem de um canteiro de coentro, por verde onde só se aceitava o amarelo esturricado, ou o enquadramento acidental de alguém mais “gordinho”, por negar o esquelético padrão, tudo para não contrariar o comando dos aquários das redações a milhas e milhas e milhas de distância. Meu episódio entra aqui: devia ser 92 ou 93, eu trabalhava na TV Cabugi e, sim, havia uma seca castigando o sertão nordestino. Chegou a incumbência de enviar uma equipe com cinegrafista e um jornalista pra orientar a captura de imagens do flagelo – mais um. Osair Vasconcelos, que na época comandava a TV, me incumbiu da tarefa.

Chegou o domingo marcado para a viagem e, isso acontece muito comigo, é quase normal, o que ocorre? Céu nublado,  anúncio de chuva desde Natal. Um prenúncio de aguaceiro que, quando mais entrávamos no “sertão”, mais se confirmava. Choveu, muito. Era lindo ver aquela chuva, em retorno. A alegria do habitante do interior, as água escorrendo em veredas reabertas, aquele branco atmosférico que quando mudava de cor era apenas para dar  lugar a um cinza-azulado no céu com promessa de mais chuva. Sempre lembrarei o momento em que chegamos a uma série de  lajedos na região do Trairi, não lembro exatamente o município, onde crianças se banhavam nas águas empoçadas nas pedras depois das chuvas que vinham caindo desde a noite anterior. Uma imagem tão forte quando a baleia de Graciliano trazendo um preá morto para oferecer a Fabiano e Sinhá Vitória – mas porque a primeira visão, a literária, tem que se sempre superior à segunda, esta que as câmeras da TV Cabugi captaram, em valor absoluto? É disso que o livro de Octávio Santiago trata.  

A viagem estava perdida? Qual nada. Estava perdida para o povo do “Fantástico”, mas não para a TV Cabugi, feita por nordestino invocados prontinhos para virar o jogo. Passamos  o dia no interior, captamos uma enchente de belas imagens, um riachão de depoimentos, uma enciclopédia visual daquele dia de volta das chuvas que faria o amigo e colega Sérgio Farias escrever aqueles textos tão dele e tão de todo mundo – tão representativo desse nordestino que somos e que, se não reforçam preconceitos, não servem. Pra gente serve, sempre serviram. Não me lembro de o “Fantástico” ter usado algo; acho que pra eles, com uma rede inteira espalhada pelo país para abastecer sua vitrine do domingo à noite, aquilo foi só um esforço sem resultados práticos. Pra nosso telejornal local, era um tesouro na primeira edição da segunda-feira que marcou a volta do inverno. Na trilha sonora, numa época em que ainda não havia o rigor da cobrança de direitos autorais, não usamos nem Elomar, nem o Quinteto Armorial (poderíamos, ficaria muito bom), nem Luiz Gonzaga. Fomos de “Chovendo na Roseira”, de Tom Jobim, com Elis. Nada menos regional, nordestino, apequenado. Somos brasileiros, tanto quanto os “sulistas” de Novo Hamburgo.

Este livro me faz feliz, como diria o baiano de Santo Amaro, outro que praticamente nada se deixa reduzir aos estereótipos tão encruados na alma pátria. É uma reparação histórica, como hoje fica bem dizer, mas é antes de tudo um afago intelectual de justiçamento sem sangue – antes, pelo imaginário. Descobrindo como fomos moldados na mente dos não-nordestinos, ganhamos consciência completa dessa construção e ficamos mais fortes para contestar tudo o que está por trás da sentença euclidiana. Sim, aquela mesma que durante décadas pensamos que era algo a nosso favor, mas que na tessitura argumentativa de Octávio Santiago evidencia-se como apenas mais um biombo por trás do qual se desenhava para o “Sul” dominante a imagem de um nordestino nem um pouco forte, mas letárgico, incapaz e previamente derrotado pela natureza – aquela ao redor ou à de sua própria constituição como pessoa, se é que estava à altura dessa classificação.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O MORRO ME DERRUBOU


Deu um alívio terminar de ler “O Morro dos Ventos Uivantes” que eu vou lhe dizer.

Eu sei que é um clássico cabeludo, do tipo penteado nas melhores casas, mas, olha, o único livro de Emily Brontë, que com as irmãs Anne e Charlotte formou um trio de improváveis escritoras escandalosas na Inglaterra da era vitoriana, por baixo da capa protetora da fama de filhas bem comportadas e discretas de um pastor interiorano, pegou pesado pra mim.

Pra situar esse meu sobressalto, vamos dizer que os livros – os bons, os ruins, os clássicos, os modernos, os revolucionários, os inovadores, os de gênero, os de bolso e os de capa dura – produzem dois tipo de efeitos em quem lê: reverência coletiva (pra não fugir à regra social) e reação pessoal (aquela na qual nem adianta mentir pra si mesmo).

Tenho uma amiga leitora cabeluda, ex-revisora de uma editora acima de qualquer suspeita, jornalista exigente, que detestou “Madame Bovary”. Acontece, porque as variáveis de cada um pesam no processo. Penei pra ler as 271 páginas do clássico de ficção científica “Neuromancer”, de William Gibson, mas não posso dizer que não gostei – a questão é que precisei ler em apenas dois dias pra não me desconectar do texto, sob risco de perdê-lo para sempre no espaço sideral. É uma algaravia maravilhosa se você não deixar o fio narrativo escorrer no meio do caos das palavras (e, desconfio, a verdadeira fonte de Ridley Scott para fazer “Blade Runner”).

Já um livro considerado por muitos como temerário (meu filho Bernardo já me disse que “tem medo” de ler) me deixou nas nuvens – o “Grande Sertão”, o céu literário de João Guimarães. Dificuldade zero. Só precisei ler meio que em “voz alta” as duas primeiras páginas e o resto foi direto ao cérebro e ao deleite absoluto.

Mas, voltemos ao “Morro”. Não gostei nada nada de me sentir preso, tanto quanto os personagens, naqueles dois “sítios” cheios de turfa, neblina e trilhas enevoadas da Inglaterra vitoriana mais profunda do que os vales do Goiás. Experimentei involuntariamente a mesma sensação dos anti-heróis Hearthcliff e Catherine (as duas, porque o livro ainda tem essa coisa Cem Anos de Solidão de nomes que se repetem). Quase sufoquei de isolamento, vivenciando a mesma agonia prisional ao ar livre que tortura os demais ocupantes do Morro dos Ventos Uivantes e da Granja da Cruz do Tordo.

A gente passa o livro inteiro entre essas duas propriedades, e não se sabe qual das duas pode ser mais asfixiante – mentira, a segunda é bem pior, não me deixem dizer besteira no calor da empolgação. Nisso, a Brontë foi muito eficiente com os recursos que tinha no seu tempo de escrita, levando em conta que a  realidade dela não era muito diferente da exposta no livro, a gente imagina. Mas eu nunca gostei muito de ambientes rurais e aí entra o componente pessoal que contraria aquela “reverência coletiva” a que me referi lá no início.

Sempre tive fascínio pelas cidades, especialmente pelas grandes cidades. Claro, nasci e cresci em cidade pequena, interior clássico. Desde que peguei minha primeira revista em quadrinhos do Homem Aranha passei a só me interessar por Campina Grande pra diante, já que Nova York ficava tão inacessível.

Quase bebê, bem antes de saber de Peter Parker e similares, lembro de meu pai me largar na casa dos meus avós, num sitio localizado a quilômetros da cidade onde morávamos. Era o fim. Eu era muito pequeno, adorava meus avós, claro, mas hoje, aos 60 anos (e muito antes disso) tenho claramente a lembrança do incômodo que aquilo me causava. Sítios não combinam muito comigo até hoje. Pra um fim de semana, vai – nada além disso.

E o clássico “Morro” lhe  obriga a ficar detido neste fim de mundo sem oferecer praticamente nenhuma chance de respirar outros ares. Eu sei que é tudo coerente e de muita força literária, ok, mas há um efeito sensorial de que não consigo escapar.

Eu tinha que encontrar uma chave pra seguir adiante e o que me ocorreu foi outro elemento consagrado do livro que, este sim, agradou-me: o aspecto gótico. Li “O Morro” usando os óculos da literatura de gênero, que este livro certamente ajudou a consolidar. Há muito de sobrenatural e de “além da imaginação” nas entrelinhas do livro – muito de sugestão jogada no meio de um texto que pode ser menos substantivo do que sua massa de palavras sugere.

O conceito de literatura de gênero está  ligado à consolidação de determinados temas, enfoques, aproximações feitas logo após a fase das inovação, das invenções. Para os entendidos mais generosos, o escritor respeitado como criador de uma nova literatura tem o grande mérito de haver instalado uma outra  forma de escrever, quebrando paradigmas com brilhantismo. Machados e Guimarães.

Já o pobre autor de livros de gênero – Stephen King, Agatha Christie e assemelhados – vem para consolidar essa criação inicial dando-lhe uma forma pasteurizada cuja importância vem, ironicamente, do fato de tornar tudo mais padronizado. E daí vem o gótico, o terror, o policial, o noir, a fantasia. Até hoje não gosto muito de fantasia, na literatura ou no cinema (somente a reprise da série Senhor dos Aneis no cinema me deixou mais curioso quanto a isso).

Mas gosto da literatura de gênero em geral, não me incomoda a “produção em massa”, o aspecto condenado pela Escola de Frankfurt. O que seria de mim sem a editora Abril dos anos 70 e 80? De muitos de nós? E da Editora Brasil América, a velha Ebal de guerra?  

Então, acionando a chave da literatura de gênero, o “Morro” adquiriu uma forma mais palatável pra mim. Embora o título, tão consagrado, esteja mais para fundador do que para reprodutor de um conceito genérico literário.

Mas, como disse uma booktuber que eu sigo (não atirem pedras, por favor), este ainda é o tipo de livro que jamais vou querer reler. A não ser que o alívio vire um outro tipo de curiosidade mais à frente, não sei.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

HAMNET E AS DORES DO MOMENTO


A força avassaladora do teatro como expressão humana e o efeito devastador de uma morte inesperada. Entre dezembro e janeiro, convivi, como nunca esperava, jamais poderia prever, com esses dois elementos. O câncer que nos levou Titina abalou cada uma das células orgânicas e espirituais de quem conviveu com ela, sobretudo amigos e familiares mais próximos. Ao final de uma despedida que nunca poderia passar pela nossa mais remota  imaginação – ao menos antes dos nove meses entre o diagnóstico e seu falecimento – veio o vazio misturado com a constatação de uma ausência retumbante, as perguntas habituais nessas ocasiões, a busca por explicações menos rasteiras possíveis e, por fim, também sem a menor previsão, veio este filme. Assisti a “Hamnet” absolutamente enlutado. E não poderia existir neste momento nada tão significativo a empacotar tudo o que vivemos entre dezembro e as duas primeiras semanas de janeiro de 2026.

“Hamnet” foi um obituário sublime. Se as pessoas que não passaram por nada semelhante recentemente vertem suas lágrimas durante a exibição, imagine quem acabou de ver um ataque orgânico consumir a vida espiritual encarnada de uma pessoa tão intensa quanto Titina. Avalie, imagine. Como pode aparecer justo agora um filme que junta a morte precoce de uma criança com a gênese provável – só provável, mas aqui a verdade histórica é imensamente menos importante do que a construção artística – de um marco da cultura humana? A despedida de Titina e um filme que sai da vida comum para mostrar o apelo irrefreável da construção teatral coincidindo no mesmo mês, do mesmo ano que começa...

Isto tudo é para dizer que não havia como assistir a este “Hamnet” sem a colossal condição pessoal a que o espectador aqui subumbe sem salvação. Dito isso, há mais – há muito, há tanto. Assim escrito parece que “Hamnet” é um didático manual visual sobre como se faz uma obra de arte ou do que ela pode resultar. É isso sim, mas nunca dessa forma direta. É tudo muito circular no filme, tudo parte do chão da vida e não de qualquer elevação intelectual estabelecida a priori. “Hamnet” exala vida orgânica, você no plateia quase sente o cheiro de terra molhada que os personagens pisam.

Agnes, a mulher deste William Shakespeare por meio da qual acompanhamos tudo, projeta um universo natural ligado à flotesta, às matas, às águas, aos componentes deste universo que tornam quase táctil as imagens do filme. Estamos em Stradford-upon-Avon mesmo, de verdade, sob uma luz filtrada pela umidade do clima e o suor de sua gente. Precisamos nos acostumar a este ambiente nem um pouco asséptico como são os nossos habitats deste novo e conturbado século atual, precisamos esquecer a tecnologia, bites e algoritmos, telas e recursos médicos. Ali se nasce e se morre com uma insegurança que faz da vida orgânica um imperativo muito mais poderoso. É curioso que tantos anos depois, uma variação orgânica como o câncer ainda possa ter o mesmo efeito – independente do avanço da medicina disponível. O filme não me deixa esquecer de Titina, Carlão, Augusto. Certas conexões lembram nossa imutável vulnerabilidade.

Mas é preciso voltar ao filme. Porque há outros elementos. Nesse desenvolver sem pressa – tão ao contrário da febre de filmes atuais que espelham a loucura da era Trump com montagens que parecem liquificador de ideias, sem demérito para elas – em “Hamnet” vamos nos aproximando com vagar do momento crucial em que uma dor insuportável se converte em um texto, uma composição, uma imagem, uma filmagem, um desenho destinado a sensibilizar uma humanidade inteira durante séculos. E a servir de seu espelho para sempre.  

Mas o filme não se atropela nunca. Sua forte carga de elementos orgânicos, de uma vida pre-tecnologia, fornece material suficiente para se entender que a arte, para surgir, precisa ser como um prédio edificado aos poucos, com o suor de cada dia, a peleja de cada batalha, a derrota de uns, a insegurança de tantos, o inimaginável se fazendo realidade – quem pode com o imponderável? Nisso, entra o elemento do tormento do artista – e novamente eu lembrei de Titina.

Titina jovem, na certeza de querer seguir o caminho escolhido, contra todas a falta de chão que esse caminho apontava. Estou falando do momento – uma cena curta, mas intensa como ela – quando Shakespeare (e não pense que ele é tratado assim com o peso deste nome no filme, nada disso) se atordoa, se contorce, se lamenta e se aterroriza por não conseguir fazer nada na vida a  não ser escrever algo que nem mesmo ele sabe o que é exatamente ou a que se destina. Um criador de textos artísticos destinados a traduzir ou pelo menos espelhar os dilemas humanos vivendo no cenário de uma vida rural, numa família convencional endividada, forjado para seguir a tradição e se manter no caminho do que é aceito se ver nesta condição é uma dor sem tamanho. Ocorre que, independente do período, até hoje o  criador está sujeito a essa condenação prévia, a esse estranhamento social que o reduz a nada. Titina sofreu com isso, quando mais jovem – e ali novamente ela estava na sala comigo diante do filme de Chloe Zhao, a cineasta magnífica que já havia me ensimesmado com seu “Nomandland”, tão real e pungente filme semidocumental sobre as pessoas de quem o capitalismo tomou até o teto, o lar convencional.

“Hamnet” é o tipo do filme que renova, mais que nosso fascínio, nossa crença no poder de elaboração do cinema. Depois de ficar um ano afastado das salas de exibição, voltei diante de marcos como “O Agente Secreto”, mas este filme, com sua sensibilidade algo Manoel de Barros, foi como que o selo do retorno definitivo. Uma recriação que ignora a verdade histórica para construir uma possibilidade narrativa em que a origem de uma grande obra, o Hamlet consagrado, é simulado com base em fiapos de fatos. Um atrevimento artístico, consciente de que o resultado dessa busca pode ser tão mais forte que não faz sentido prender-se ao real – ainda mais neste caso, em que não há um real comprovável e onde o resto, como diria o próprio, é silêncio.

“Hamnet” faz sua própria construção possível, arrancando lirismo 

filtrado em lágrimas a partir de uma dor cruel, o próprio filme 

comentando o custo e maravilha de se transformar o insuportável – 

no caso, o desconhecido – em princípio da arte.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A NOVA POROROCA VISUAL DE ARI ASTER

 


Como meus filhos me mostraram o quanto eu estou por fora e como isso vai dar no novo “Eddington”


Adolescentes, meus filhos sempre souberam o quanto eu gosto de cinema. E como bons filhos de 14 a 17 anos, tinham um prazer especial em mostrar o quanto eu, tão cheio de repertório em cinema, não conhecia tudo. Aliás, não conhecia coisas tipo essenciais. Como você não conhece “Midsommar” – pareciam dizer? Graças a essa dinâmica pais-e-filhos com pequenos desafios e ligeiras provocações, quando os mais jovens precisam mostrar aos mais velhos que eles não sabem tudo e precisam ouvir quem chegou depois, tomei conhecimento deste filme e do seu diretor, Ari Aster – igualmente cultuado por eles.

Eu com meus Roman Polanski, Martin Scorsese, Stanley Kubrick, Spielberg e outros velhos manjados, quando muito chegando a Christopher Nolan – e eles rindo de mim por não ter ideia de quem  é este diretor norte-americano especialista em filmes que misturam terror (adolescentes amam terror, é sabido) com questões psicológicas de profundidades abissais. Eles me esnobaram e eu gostei. E fui ver o tal “Midsommar”. Descobri um filme muito bem construído sobre um grupo de americanos que aceita o convite para visitar uma estranha comunidade sueca onde rituais pra lá de esquisitos são realizados e sobre o quais paira um clima de mistério e imprevisibilidade que contamina tudo e todos, sob o sol do solstício de verão escandinavo.

É algo muito bem realizado, uma tensão que vai se fazendo aos poucos, numa escalada de surpresas ascendente e da qual não dá pra voltar atrás. Não é terror adolescente gritado na escuridão, é tudo ao sol rural, numa atmosfera tão idílica quanto incômoda, de difícil descrição. Excelente para o cinema, este produto meio arte meio experimentação tão sensorial. “Midsommar”, como ocorre com os bons filmes, faz você sentir a experiência: o olhar e a audição são dutos para entrar neste mundo à parte construído por um diretor, um roteirista, cenógrafos, fotógrafos, atores, uma equipe inteira vivendo em torno de uma proposta estética e, quando bem sucedida, até transcendente.

Depois assisti também a “Hereditário”, o primeiro longa de Ari Aster, naturalmente com um impacto menor do que o filme seguinte – a gente vai assimilando as manhas narrativas e as opções visuais dos cineastas.

E chegamos a ontem à noite: catando nas programações um filme para continuar com minha maratona cinematográfica desses dias de janeiro – depois de ver “O agente secreto”. “Valor sentimental”, “Foi apenas um acidente” e “Nouvelle Vague” – esbarrei em “Eddington”, o título puro e simples na grade em branco e preto que o Cine Brasília publica no Instagram. Fui fuçar e, surpresa, descobri que se tratava do novo filme de Ari Aster, após o terceiro, “Beau tem medo”, que foi meio mal recebido e a que eu não assisti (mas sigo curioso).

Chamei minha filha Cecília na hora porque sei o quanto ela aprecia os filmes de Ari Aster, está sempre pronta a desvendar os truques narrativos que ele usa, a desfrutar da proposta de cinema que ele entrega. Só não chamei Bernardo porque ele não mora mais em Brasília, mas se tiver chance vejo de novo o filme na companhia dele pra ver sua reação. Ao filme:

“Eddington” é uma pororoca audiovisual sem qualquer limite que mistura temas como negacionismo, antivacina, neofascismo e antifascismo, pandemia e rancores pessoais, enfermidade mental com teorias conspiratórias, isolacionismo com o caso George Floyd, culto às armas com disputa política rasteira, fake news com povos originários, tudo numa pequena cidade que é visivelmente um microcosmo da América atual e de sua loucura também sem fronteiras. Tudo isso da maneira mais caótica e sem freios que se puder imaginar. Especialmente após a primeira hora e meia de projeção – que é quando o filme de fato acontece.

O que houve ontem em Mineapollis – novamente, a mesma cidade onde George Floyd foi morto por policiais, desencadeando uma onda de protesto que chega à cidade do filme de Aster de forma inicialmente caricata e depois com toda sua potência – é um exemplo e um reflexo da realidade que o quadro geral que “Eddington” instala na tela do cinema. Tudo a ver o fato mais recente e o que este cinema traz.

O filme é confuso, estabanado e exagerado, mistura temas e detona um pouco de todos eles sem se deter muito em nenhum, solta fios desencapados que ora irritam o espectador com um campo minado de dados soltos mas também o alertam para o inexpugnável propósito por trás de todo aquele furacão cinematográfico. Não tem como não ter sido pensado assim. O que parece falho e pode incomodar pelas soluções evidentemente despreocupadas com qualquer fazer sentido na verdade é o objetivo que recobre tudo.




Não assista a “Eddintgon” esperando controlar a narrativa que lhe chega aos olhos – mesmo porque seu par de olhos e de ouvidos não será suficiente, assim como seu cérebro limitado, para dar conta de todos os estímulos simultâneos. Há cenas em que você parece precisar se decidir entre ouvir e entender o diálogo (ainda mais lendo legendas) ou prestar atenção numa informação que vem de um ruído de fundo (mas não tão fundo que possa ser desimportante) ou ainda ler textos nas telinhas de celulares ou similares que compõem os quadros das sequências. A questão é: esqueça o cerebral, viva o sensorial puro e simples e siga adiante – o que o filme quer lhe mostrar e dizer, a provocação que ele pretende fazer, precisa dessa mistura doida e sem barreiras. Este pandemônio é a própria essência do que o filme representa, a balbúrdia é seu idioma particular. Nada mais distante da apreensão organizada de forma crescente mas escalonada em “Midsommar”, mas ainda é Aster com seu arsenal tão particular fazendo a diferença.

“Eddington” é um tratado cinematográfico sobre a loucura americana atual, sob Trump e as polarizações exacerbadas – não menos do que no filme, se a gente pensar bem. Uma sinfonia do caos que rastreia e expõe em forma de metáfora visual o rumo que o mundo tomou, a reboque de tecnologias que tribalizam, líderes esquentadinhos que agem como crianças mimadas, uma extrema direita que segura a cruz cristã numa mão e a metralhadora de matar bandido na outra. Não à toa, o filme só realmente acontece – e a partir daqui, não para mais nem pra respirar – após um massacre que ocorre depois de pelo menos uma hora de projeção. Você pensa que o filme vai acabar mas não – está apenas começando. Penso em Glauber Rocha e em Quentin Tarantino, em Roberto Rodriguez e “A Batalha de Argel”.

Deste ponto em diante, quanto menos previsibilidade houver – e há – melhor o filme fica. Quando mais confuso, mais rico. Quanto mais disparatado, mais coerente. É algo que vai surgindo em meio às cinzas do que resta na tela, onde até uma citação de “Rambo” soa, acredite, natural. Um evento, um teatro de José Celso Martinez em outra matriz, a Roda Viva planetária do nosso tempo, banhada em sangue. Um filme que, acredito, vai virar cult em dez segundos.

Que bom que meus filhos me mostraram o quanto eu não sou de nada – e me apresentaram a Ari Aster.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

DOIS FILMES, UM VEREDICTO E NENHUMA CERTEZA

 


Foram duas experiências opostas – e contra a corrente dominante das expectativas e avaliações. Depois de “O agente secreto”, meu retorno aos cinemas após um ano distante se completou esses dias com “Foi apenas um acidente” e “Nouvelle Vague”. Ao contrário de todo mundo, não tive uma boa fruição com o primeiro. E contra o que se tem dito do segundo, gostei às pampas de cada minuto – veria novamente com satisfação. Vamos aos fatos.

Ouvi elogios soltos sobre o filme iraniano coproduzido pela França. Aquele cartaz com aquela van no meio do nada é sempre uma sugestiva imagem cinematográfica que quebra nossa indiferença. Mas não fui além disso – nada li sobre o filme, assim como havia feito com “O agente secreto”. Apenas entrei na sala e meio que disse à tela: vai lá, manda ver, vou tentar navegar no que você me entregar, a experiência é soberana.

Não costumo assistir a filmes sem antes ter lido minimamente sobre eles. Nem me incomoda muito que antecipem boa parte do que vou ver – a visão pessoal mesmo, lá na sala escura, é maior que tudo o que foi dito. Você pode entrar com uma expectativa gigantesca e assistir a um filme-rato que só parecia uma montanha. Ou o contrário. E acredito muito nos critérios de cada um: construir uma filmografia pessoal é uma obra de anos de sensibilidade feita à base de tijolinhos grudados a cada sessão, cada fruição específica. Respeitando a história de como cada um descobriu, ficou encantado, aproveitou ao máximo, irritou-se ou maravilhou-se com os filmes a que assistiu.

Então já posso dizer: minha baça opinião sobre “Foi apenas um acidente” provavelmente eu vou conhecer mesmo é à medida que escrevo isso aqui, porque não é nada estranho pra mim descobrir minhas próprias avaliações enquanto caço palavras para construir uma definição. E não terá sido diferente do que foi dito sobre o filme – sim, após vê-lo, fui checar o que estão dizendo de fato sobre ele. Encontrei uma miríade de interpretações mas todas, TODAS as que li, rendendo glórias ao filme. Muito pela absurda e impressionante condição em que foi feito, praticamente às escondidas, para que cineasta, equipe, técnicos, atores não terminassem nas masmorras do regime teocrático iraniano. Descobri, após ver o filme (e isso faz muita diferença) que “Foi apenas um acidente” foi feito na clandestinidade. Você consegue imaginar um filme – e ainda mais um filme como este, rodado praticamente todo em externa – feito às escondidas? O diretor, Jafar Panahi, deve estar na França após condenado no Irã por ter feito outros filmes no mesmo tom de denúncia.

Já estou misturando tudo. É preciso voltar e organizar:

1.Como disse, entrei na sala sem saber quase nada sobre “Foi apenas...”.

2.Como também disse, é raro eu me atrever a fazer isso – uma informação por mínima que seja me situa muito melhor, sinto necessidade.

3.Sem ter lido nada sobre o filme, não sabia sequer que é um típico filme político de resistência iraniana – embora, claro, pelas próprias imagens de divulgação ficasse claro que era algo passado entre o Afeganistão e o Iraque. E certamente muito político.

4.Com isso, gastei energia em buscar me certificar de informações que o filme não entrega de primeira – como o local da história. As roupas e o jeito ocidentalizado da personagem que é uma fotógrafa me deixou desconfiado de que poderia não ser o Irã. Fui meio fundamentalista, perdão. Mas mantive a dúvida até o final.

5.Com isso, fiquei desatento a algo importantíssimo, que é o uso do som, indicativo que leva ao conflito inicial: um homem que foi torturado identifica seu torturador na oficina mecânica onde trabalha apenas por reconhecer o som da perna artificial usada por ele.

Isso detona tudo e o filme acontece, até pra mim que nada li antes. O torturado sequestra o torturador – o que, no início parece algo de uma violência sem igual, mas os sinais estão trocados e essa é uma das graças do filme – e decide enterrá-lo vivo.

Mas brota a dúvida, e a dúvida é a mãe do filme, seu fulcro principal. Todas as sequencias dentro da van, pra cima e pra baixo, os imprevistos, o vai-e-vem muitas vezes atrapalhado que vem em seguida e se estende pelo filme inteiro é um desenvolvimento audiovisual desta dúvida: afinal, o homem é ou não o torturador? Apenas um som suspeito é capaz de garantir sua identidade e valer essa vingança mortal?  Sim, porque nenhum dos torturados viu claramente o rosto do seu torturador – razão pela qual o mecânico que primeiro desconfiou tem que sair reunindo outros torturados para ter certeza.

Não há certeza. Há dúvida. Um torturado tem o direito de se vingar de quem o torturou se não tem certeza de que ele é ele mesmo? A diferença está aí, entre aquele grupo de pessoas meio estabanadas,  completamente traumatizados pelo passado de violência, e o homem em julgamento improvisado. Claramente se estabelece a diferença entre eles – e, para além da questão política – é isso o que recobre de nobreza humana os torturados. Eles se permitem ter dúvida, ainda que isso os incomode tremendamente. A ética deles está ali, toda ali. Nisso, é um ótimo filme, sim – e, como lida com uma situação política que os americanos adoram odiar, certamente vai levar o Oscar que poderia ir pra “O agente secreto”, meu palpite. O peso político é mais forte do que a densidade cinematográfica mas a gente sabe que aquele costuma prevalecer sobre este nessas premiações do grande cinema mundial. Falando nisso, eu sequer sabia que “Foi apenas...” ganhou a Palma de Ouro mais recente.

Só que, pra mim, como viciado em cinema que retorna às salas após um ano afastado, foi demais o arrastar daquela situação por vezes absurda – mas tudo coerente dentro do filme, e de forma inclusive a enriquecê-lo. Acontece muito mais do que se espera a partir deste plot inicial. São novas situações por onde escapa toda a nossa humanidade, seja no Irã ou em Santa Catarina. Mas é um filme difícil de ver no sentido de, ainda que tentando aqui e ali soar leve, ser sempre muito cru. Há uma cena gigantesca de um plano parado: um homem amarrado a uma árvore, vendado, enquanto o que se diz em torno dele contém toda uma epopeia de violência política. É uma grande cena, tanto mais gigantesca quanto mais parada – a imobilidade da dor que ali atinge a todos.

Dito isso, será que eu me enganei de gostei bastante e “Foi apenas...”? Vou fazer como o filme, deixar no ar. Talvez eu não estivesse preparado. Como alguém que foi privado de alimentação durante um mês e tem uma indigestão ao comer o primeiro e exagerado prato de comida. O fato é que, como fruição – e o cinema é múltiplo, há gêneros e gêneros, possibilidades e experimentações as mais vastas, além do convencional puro e simples – eu fiquei achando que “Foi apenas..” tá meio superestimado.


Vamos a “Nouvelle Vague” que de superestimado não tem nada. Esperava-se que o filme, uma reconstrução do momento em que Jean-Luc Godard e companhia fundiam uma nova linguagem cinematográfica quebrando velhas convenções do cinema francês e mundial, fosse ele também um filme à moda do novo cinema francês dos anos 60.

Ah, sim, digo isso porque neste caso li um pouco sobre o filme antes de vê-lo, no telão maravilha do Cine Brasília, pra onde enfim também retornei. Ainda bem que fui prevenido pelo pouco que li – eu também poderia ter caído nesta armadilha de esperar um filme-experimento à la Godard. A queixa geral era de decepção, porque “Nouvelle Vague”, o filme, é bem  convencional, tão certinho, tão americano, nada tendo a ver com as rupturas do movimento que o inspirou.

Primeiro acho que hoje em dia não faz sentido algum evocar as rupturas do “Acossado”, que é o filme cuja gravação e edição é reconstituída em “Nouvelle Vague”: já foi tudo absorvido, a linguagem do cinema mundial é uma bocona aberta que sabe muito bem incorporar cada novidade que cada novo movimento coloca nas telas. Não iria impactar nada. A opção do diretor Richard Linklater, cuja folha corrida inclui coisas convencionais como a trilogia iniciada com “Antes do amanhecer” e até o filme-chiclete “Escola do Rock”, foi, à custa de um clássico branco e preto e de um padrão quadrado (4X3), contar sua história da forma mais tradicional. E quer saber? Funciona que é uma beleza. Pra mim foi um passeio descomplicado sobre a forma como o enfant terrible Godard e seus amigos, mais ele que seus amigos, meteu os peitos contra o que não era permitido ou esperado e fez seu filme da maneira mais desconcertante possível. Hoje sabemos, estamos bestas de saber, sobre a mudança de rumos que “Acossado” provocou. Ali, na hora de conceber, planejar (?!), filmar, editar, a história era outra.

E se o filme feito sobre este filme opta por usar justamente os padrões convencionais que o filme e o movimento homenageado por ele contestam em outro momento histórico, não deixa de ser uma ironia bem ao modo Godard.

Assistam, divirtam-se, abusem do bom humor e não esperem uma revolução mas sim uma bela fruição. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

UM MINIDVD E DOIS PETARDOS DO ACERVO

Quando o acervo chama e há tempo dando sopa, eu vou a ele. Assim foi no fim de semana. Com um novo mimo da trecolândia eletrônica pedindo pra ser testado – um miniDVD player ótimo pra usar em viagens, porque cabe fácil na bagagem de mão mesmo – lá fui eu em busca de pelo menos dois títulos para pilotar o equipamento, limpar a mente, arejar o espírito, calibrar as pilhas da fruição cinematográfica.

Peguei uma reprise bem reprise mesmo, porque de um filme que não revia há pelo menos uns 15 anos, e uma novidade velha, que é como se pode chamar um desses títulos que fazem parte da obra de grandes diretores, que você tem em casa mas esquece ou não se dá conta. Coisa de colecionador que adquire o que está à venda onde der com medo de que aquilo suma e nunca mais esteja disponível – o que é bem frequente. E então aquele filme, aquele show, aquele documentário fica em casa esperando a hora certa de ser apreciado.

Vamos a eles. De uma caixa da Versátil com filmes do cineasta francês Claude Chabrol, pesquei “Ophélia”, filme de 1963 em que, como o título antecipa, a clássica história de Hamlet é sacada pelo diretor para uma reconstrução contemporânea. É algo elegante, de imagens tão compostas quanto uma equação do segundo grau, luzes e sombras sob medida para criar aquele clima de desconfiança que faz parte do tom conspirativo da obra original. O príncipe inconformado se torna o jovem Ivan e, como diz o título, há uma Ofélia – uma garota a quem ele atribui o papel – assim como a mãe e o tio, usurpadores do pai. Ivan, danado da vida, passa na frente de um cinema tosco e vê o cartaz do “Hamlet” estrelado por Lawrence Olivier. 

É o bastante pra se dar conta do paralelismo entre sua própria situação e a do atormentado jovem dinamarquês. Há sempre algo de podre num reino qualquer, seja lá, ali ou acolá. Só não entendi porque Chabrol recorreu à sua Ofélia sessentista para dar nome ao filme, já que ela não tem essa presença tão determinante na sua readaptação. Muito mais marcante é olhar sanguíneo da atriz italiana Alida Valli, que eu cismei de já ter temido antes – mas uma boa meia hora de pesquisa na internet acabou com minha ilusão de que a havia visto com destaque no navio de “...E la nave vá”, o filme mais operístico de Federico Fellini. Nada confirmado. Foi impressão falsa ou participação não creditada. O que importa é que ela faz picadinho de vidro moído do neo-Hamlet e seu entorno. Se for por aí, o filme deveria se chamar “Gertrudes”.
Sim, o DVD player foi aprovado na experiência, embora, por ser um mini-equipamento, eu tenha sentido falta de alguns pitocos – como o velho e bom “stop”. Tem não, viu? Mas a pessoa resolve dando um but seco, ou seja, abrindo a tampinha que fecha a parte onde o disco fica e roda. É bonitinho o equipamento. E funcional, à maneira miniaturizada dele. 

Vamos ao segundo filme, que foi “Lanternas Vermelhas”, aquela coisa que tomou conta das audiências bem no início dos anos 90 (91, segundo minhas pesquisas nos sites), com a descoberta no ocidente do chinês Zhang Yimou (escrito nesta ordem ou na ordem inversa, essa coisa tão a cara do mundo oriental). Houve uma onda desse cinema naquela época, quando vimos, além deste, títulos como “Adeus minha concubina”, “O tigre e o dragão”, “Viver” e alguns cujo nome me escapa. Assisti a um deles – um dos mais pungentes melodramas a que vi na vida, no Cine Brasília, quando aqui cheguei em 1995, que me moeu a alma. Saí tão realizado quanto devastado – sou fã de melodramas. 

Pausa aqui: é por isso que gosto de escrever sempre, não perder a prática. A busca das palavras fricciona a memória já capenga e os títulos e nomes esquecidos chegam, acenando as mãozinhas num desfile memorialístico. Sim, acabei de lembrar que filme era esse do final do parágrafo anterior: o grande “Amor e Sedução” (Jou Dou- 1990), do mesmo, veja só (isso eu não lembrava mesmo) Zhang Yimou, e com a mesma (lembrava menos ainda) Gong Li, a super-atriz oriental que estrela “Lanternas Vermelhas”, fazendo a estudante desvalida que precisa abandonar a universidade para virar a quarta esposa de um chinês ricaço nos anos 1920.
“Lanternas” é um estupor de uso de cores – vermelhões berrantes (berrantes mas à maneira oriental, entenda bem) em contraste com o cinza azulado cor de morte dos telhados do conjunto arquitetônico onde o tal ricaço mantém suas quatro esposas. Um harém silencioso e opressivo. Neste espaço algo big brother, elas se engalfinham com toda classe, os empregados ajudam a entornar o caldo, as intrigas banham tudo, uma joga as outras como as demais, nãos se sabe bem que terreno é este onde se pisa, e a jovem recém-chegada vê sua estabilidade psíquica escorrer pelas paredes daquelas construções cuja dureza é quebrada apenas pela claridade colorida das lanternas. 

Essas são acesas sempre numa das quatro casas onde o senhor passará a noite – nunca em todas elas. Há uma guerra de privilégios entre quatro mulheres praticamente escravizadas, num filme que nunca sai desse sufocante ambiente e que se aplica com destreza a fazer do seu cenário quase um quarto personagem – por vezes, mais destacado do que o próprio dono do pedaço, que só aparece assim, aos pedaços, poucas vezes integralmente. Porque o espaço ali, o conflito ali, a guerra não declarada é entre as quatro esposas cujas vidas são ditadas pelo efeito dessas lanternas. 

Um grande filme, uma coisa pictórica como poucas vezes se vê, concentrado muito fortemente na linguagem puramente visual, quase uma série de telas animadas escorrendo o sangue invisível dessa asfixia emocional que vem tanto de cima quando das laterais. Não lembrava da força desse filme e só de revê-lo numa tela tão pequena fico imaginando o quanto ele é devastador – no bom sentido – numa projeção convencional de cinema. 

Deu uma vontade absurda de ir atrás de “Amor e sedução”, mas deve ser bem difícil encontrar uma cópia. Streaming nem pensar, que o mercado desse segmento é bem volúvel, difícil de se apostar. Nessas horas vê-se o quanto um acervo físico é válido, contra todas as marés do descarte e desse falso sentimento de desapego que de correto virou só um modismo de ostentação contrária.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A SOCIOLOGIA PARALELA DE MENDONÇA FILHO


Meu filme preferido de Kleber Mendonça Filho segue sendo “Aquarius”, mesmo com toda a excelente repercussão de “O Agente Secreto”. É coisa minha, e sou devoto da religião segundo a qual cada um reage ao audiovisual com as armas que tem – a própria memória, o acervo particular de filme que foi formando ao longo da vida, características únicas de cada um, por aí. Sou mais pra cartesiano que pra subjetivo, ainda que seja um tanto quanto contemplativo. Minha mirada é flexível, sabe se curvar e sair do caminho habitual quando a proposta é boa, mas há elementos que prevalecem.

Pelo fato de haver estado muito em Recife nos anos 80, onde reside até hoje um amigo e sua família muito querida, e também por ter morado lá durante todo o 1984 (um dia Mendonça Filho, o cineasta, e não o político, argh, fará um filme passado em Recife naquele belo e intenso ano, tenho fé) favorecem minhas simpatias por tudo o que vem com a assinatura do cineasta pernambucano. Não é heresia dizer que todo pernambucano – recifense, então, nem se fala – se acha o centro do planeta. Eles são, do jeito deles. Em muitas circunstâncias a gente abaixa a cabeça como satélites menores. Kleber Mendonça Filho, com essa cinematografia tão rica e reveladora, vinda de lá e não do decantado centro-sul que durante milênios mandou nas nossas preferências estéticas, nos vinga e nos refestela. Viva Kleber. Mas os filmes me pegam de maneiras diferentes. Esse post é pra dizer isso – e diz.

Não vi “O som ao redor” em sala de cinema. Assisti em DVD, esse cineminha caseiro confortável mas incompleto – sempre, e especialmente neste tipo de cinema que Kleber estava trazendo. Talvez já por isso, por falta de imersão que só a sala escura pressupõe, minha objetividade brigou e ainda briga com “O som ao redor”. A aluvião de alusões soa como o turbilhão de um rio que me impede de alcançar a outra margem. Tenho que fazer um esforço para me conectar com o filme durante toda sua extensão. A referência refeita- e rarefeita – à cultura ancestral dos engenhos transplantada aqui para o ambiente urbano, que por efeito do tempo reforça a decadência de um poder falido e seus subprodutos numa rua de Setúbal, em Recife, nunca parece suficiente pra mim. Mas eu sou teimoso e sempre me proponho a rever mais uma vez. Só que agora não tem a mesma graça: já li tanto sobre o filme que a informação externa bloqueia a reconexão. Não é a mesma coisa.

“Aquarius” é um banquete cinematográfico que, a um espectador mais pro convencional como eu, alimenta, sacia e vitamina ao ponto de causar uma deliciosa indigestão. “Aquarius”, completão, cheio de referências ao Brasil da era Dilma, era uma vingança servida em prato quente, fervendo, de queimar a língua. O final, de uma catarse rara nas salas de cinema, fazia a gente sair da projeção sem sequer  pisar no chão. Era o nosso não ao abuso financeiro cujo charme publicitário passa por cima de tudo, com sua cara de bom moço ao qual é suicídio resistir. Se não conseguimos erguer esse anteparo na realidade, que pelo menos tenhamos a compensação no terreno da representação. E Kleber Mendonça Filho, com Clara e Sônia Braga, parece que funcionavam como antenas de um momento brasileiro, captando a insatisfação calada à força de tantos e tantos, jogando tudo de volta naquela tela de cinema invadida por um ninho de cupins.

“Bacurau” tem elementos de natureza pessoal que interferem na antena da percepção. Quem primeiro me falou desse filme, sem nome nem mais informações objetivas, foi minha mãe. Nas ligações regulares que faço para ela, disse que a cidade – Parelhas, RN, onde cresci e onde ela mora – estava toda agitada “por causa de uma coisa da Globo”. Era engraçado. Isso evoluiu para uma conversa de que o povo de Parelhas ia à padaria da esquina e encontrava... Sônia Braga comendo pão quentinho. Não demorou e ficou claro que aquilo eram os preparativos e gravações de “Bacurau”, que não foram feitas na sede do município mas no povoado da Barra, que na tela virou esse lugar pop-mítico que dá nome ao filme.

Fui ver “Bacurau” todo envolvido por esse zum-zum-zum. Dá pra contar com distanciamento e objetividade? E desde quando eu encaro o cinema com distanciamento e objetividade? Vamos lá. Veio algo diferente, novamente pouco comum no cinema brasileiro, Kleber nunca é convencional. Um filme que, molhado no tempero do cinema de gênero, soa pegajoso, telúrico e também resistência pura na tela do cinema. Havia metáforas a perder de vista, como sempre. Um estudo sobre a forma como certo segmento do mundo olha para outro segmento a quem se julga superior. Isso dito com tiros, armamento pesado, violência high-tech, diálogos casuais, situações surreais – suco de Kleber Mendonça Filho, aqui em parceria com Juliano Dornelles.  

Chega “Retratos Fantasmas”, que poderia ser só um filme-tampão, mas, mais curto, mais objetivo (aí, sim), mais evocativo do que alusivo, embora sempre funcionando como um comentário sobre os rumos do país, a partir da transformação quase assassina das realidades urbanas nas grandes cidade, foi muito além do que se propunha. Kleber Mendonça Filho não precisa ser quase épico para turbinar a carga dramática de suas histórias. Pode até recorrer a um tom quase intimista – como bem faz em sua narração em off ao longo de “Retratos” – e o efeito é o mesmo. Novamente, em “Retratos” a minha circunstância pessoal pesa muito: vivendo em Recife no ano de 1984 e visitando muito a cidade antes e depois, frequentei praticamente todas aquelas salas de cinema de rua que ele vai listando e relembrando ao longo do filme.

O primeiro filme a que assisti em Recife, em 1983, com meu amigo Ítalo, que tinha a generosidade de me oferecer essas experiências, foi “Caçadores da arca perdida” no cinema Veneza. Uma tela como eu nunca havia visto. Jamais esqueço daquela bola gigantesca rolando em direção a Harrison Ford numa das primeiras sequencias. No Veneza, aquela bola era quase concreta e eu estava logo à frente dela também.

Ninguém, nem mesmo o filme de Kleber Mendonça Filho, é capaz de expressar verdadeiramente o que era o Veneza: seus mármores, seu cheio (nossa!), suas poltronas confortáveis, sua sala de espera que lhe deixava em estado de graça antes da projeção, tudo, tudo. E nem vou falar do São Luiz, onde passei seis horas seguidas, sozinho, em pleno carnaval pernambucano,  assistindo a duas sessões de “Era uma vez na América”, o grande filme de Sérgio Leone que estava sendo lançado naquele momento, em 1984. Como também vou só citar rapidão uma sala menos pomposa, mas tão distante de meu cinema-poeira Rex, em Parelhas, o Moderno, onde eu e Ítalo vimos duas vezes seguida o assustador “O Dia Seguinte”, também em 1983. Sabe o fenômeno “Hair”, que no “Retratos” Kleber conta que lotou o Veneza por meses? Também vi, numa reprise naquele mesmo carnaval, mas no Art Palácio. Melhor parar por aqui.

Então “Retratos Fantasmas” é esta peça audiovisual à qual eu não tenho como assistir com distanciamento. Mais uma.

E o cinema me faz pensar que, mais do que um esteta da imagem, Kleber Mendonça Filho é um tipo alternativo de sociólogo. Um Gilberto Freyre renascido em um mundo em transição, muito incisivo no que se propõe a examinar, seja a destruição financeira dos centros urbanos, o pouco caso com países da “periferia” do mundo capitalista, a arrogância da especulação imobiliária ou a forma ardilosa como a ditadura militar entrava em todos os ambientes.

Por coincidência ou não, várias das incisões que ele fez passam pela carne das minhas memórias e experiências. Dificulta a avaliação, mas felicita o coração. Não posso reclamar

ANTES DE TUDO

                                    O  Nordeste monotemático, restrito à seca, à violência e ao fanatismo, é a base de Octávio Santiago para...