O Nordeste monotemático, restrito à seca, à violência e ao fanatismo, é a base de Octávio Santiago para mostrar como se construiu a imagem social da região. O livro, “Só sei que foi assim”, é a transcrição da tese acadêmica do autor que buscou as pistas, evidências e demonstrativos de como foi erigida uma visão preconceituosa da região e de seus habitantes, ou dos que dela vieram, muitas vezes com a concordância manipulada dos próprios originários dos nove estados que a compõem.
Literatura, filmes, poder político, jornalismo, Canudos,
Euclides da Cunha, o jornal O Estado de São Paulo, Glauber, Graciliano,
embranquecimento, obras da “emergência”, o termo “paraíba”, tudo passa na avenida
dessa recuperação e encontra seu lugar no edifício simbólico, mas absolutamente
constante, dessa visão redutora de uma grande extensão do país. Importante
lembrar que não há nem de longe o menor sinal de cancelamento, que veta obras e
autores e nisso extingue no grito a discussão. Octávio Santiago inscreve as grandes
representações artísticas da região, da estatura de “Vidas Secas” pra frente,
como indiscutíveis relevâncias estéticas, ainda que, justamente por tão marcantes,
reforçarem indiretamente a construção dessa imagem social de que nós, nordestinos,
parece que nunca conseguiremos nos livrar. E o que fazemos, como autênticos
brasileiros?, invertemos o jogo e tiramos o proveito desses, digamos, gracejos
(tantas vezes soam apenas como isso) para nos afirmar na contramão do aceito,
do elogiável, do esperado. Nós, nordestinos,
não somos exatamente o que se espera. Não é por a gente não ficar chorando o
tempo todo essa mágoa que não notamos. A gente se insurge à nossa maneira, como
quando reforçamos o sotaque quando ele causa algum estranhamento a alguém por
perto.
Na página 156 do livro, um trecho sobre a reação de Raquel
de Queiroz à forma como a mídia tratava a seca de 83-84 me lembrou um episódio
pessoal. O livro trata aqui, por exemplo, das reportagens do “Fantástico” que
fizeram muito sucesso na época e entraram para o livro dos grandes momentos do
telejornalismo brasileiro: o repórter chorando diante da criança desnutrida, no
casebre da família de flagelados, que brincava com ossos de animais como se
fossem o gado de uma fazenda infantil imaginária. Raquel reclama que o
jornalismo da época – e o jornalismo da época fazia muito isso, destaque-se –
tirava do ângulo das câmeras qualquer elemento que contrariasse a imagem de uma
seca rigorosa e de suas vítimas terminais.
A seca de 83-84 foi realmente terrível, não é essa a questão.
Mas a gente sabe como se dá maior ênfase ao que, de tão gritante, nem precisa
de reforço. Assim, lembra a autora de “O Quinze”, nos anos 80 se evitava, numa
reportagem de TV ou fotografia de jornal, qualquer imagem de um canteiro de
coentro, por verde onde só se aceitava o amarelo esturricado, ou o
enquadramento acidental de alguém mais “gordinho”, por negar o esquelético
padrão, tudo para não contrariar o comando dos aquários das redações a milhas e
milhas e milhas de distância. Meu episódio entra aqui: devia ser 92 ou 93, eu
trabalhava na TV Cabugi e, sim, havia uma seca castigando o sertão nordestino.
Chegou a incumbência de enviar uma equipe com cinegrafista e um jornalista pra
orientar a captura de imagens do flagelo – mais um. Osair Vasconcelos, que na
época comandava a TV, me incumbiu da tarefa.
Chegou o domingo marcado para a viagem e, isso acontece
muito comigo, é quase normal, o que ocorre? Céu nublado, anúncio de chuva desde Natal. Um prenúncio de
aguaceiro que, quando mais entrávamos no “sertão”, mais se confirmava. Choveu,
muito. Era lindo ver aquela chuva, em retorno. A alegria do habitante do
interior, as água escorrendo em veredas reabertas, aquele branco atmosférico que
quando mudava de cor era apenas para dar
lugar a um cinza-azulado no céu com promessa de mais chuva. Sempre
lembrarei o momento em que chegamos a uma série de lajedos na região do Trairi, não lembro
exatamente o município, onde crianças se banhavam nas águas empoçadas nas
pedras depois das chuvas que vinham caindo desde a noite anterior. Uma imagem
tão forte quando a baleia de Graciliano trazendo um preá morto para oferecer a
Fabiano e Sinhá Vitória – mas porque a primeira visão, a literária, tem que se
sempre superior à segunda, esta que as câmeras da TV Cabugi captaram, em valor
absoluto? É disso que o livro de Octávio Santiago trata.
A viagem estava perdida? Qual nada. Estava perdida para o povo
do “Fantástico”, mas não para a TV Cabugi, feita por nordestino invocados prontinhos
para virar o jogo. Passamos o dia no interior,
captamos uma enchente de belas imagens, um riachão de depoimentos, uma
enciclopédia visual daquele dia de volta das chuvas que faria o amigo e colega
Sérgio Farias escrever aqueles textos tão dele e tão de todo mundo – tão representativo
desse nordestino que somos e que, se não reforçam preconceitos, não servem. Pra
gente serve, sempre serviram. Não me lembro de o “Fantástico” ter usado algo;
acho que pra eles, com uma rede inteira espalhada pelo país para abastecer sua vitrine
do domingo à noite, aquilo foi só um esforço sem resultados práticos. Pra nosso
telejornal local, era um tesouro na primeira edição da segunda-feira que marcou
a volta do inverno. Na trilha sonora, numa época em que ainda não havia o rigor
da cobrança de direitos autorais, não usamos nem Elomar, nem o Quinteto
Armorial (poderíamos, ficaria muito bom), nem Luiz Gonzaga. Fomos de “Chovendo
na Roseira”, de Tom Jobim, com Elis. Nada menos regional, nordestino,
apequenado. Somos brasileiros, tanto quanto os “sulistas” de Novo Hamburgo.
Este livro me faz feliz, como diria o baiano de Santo Amaro,
outro que praticamente nada se deixa reduzir aos estereótipos tão encruados na alma
pátria. É uma reparação histórica, como hoje fica bem dizer, mas é antes de tudo
um afago intelectual de justiçamento sem sangue – antes, pelo imaginário.
Descobrindo como fomos moldados na mente dos não-nordestinos, ganhamos consciência
completa dessa construção e ficamos mais fortes para contestar tudo o que está
por trás da sentença euclidiana. Sim, aquela mesma que durante décadas pensamos
que era algo a nosso favor, mas que na tessitura argumentativa de Octávio
Santiago evidencia-se como apenas mais um biombo por trás do qual se desenhava
para o “Sul” dominante a imagem de um nordestino nem um pouco forte, mas
letárgico, incapaz e previamente derrotado pela natureza – aquela ao redor ou à
de sua própria constituição como pessoa, se é que estava à altura dessa
classificação.









