Peguei uma reprise bem reprise mesmo, porque de um filme que não revia há pelo menos uns 15 anos, e uma novidade velha, que é como se pode chamar um desses títulos que fazem parte da obra de grandes diretores, que você tem em casa mas esquece ou não se dá conta. Coisa de colecionador que adquire o que está à venda onde der com medo de que aquilo suma e nunca mais esteja disponível – o que é bem frequente. E então aquele filme, aquele show, aquele documentário fica em casa esperando a hora certa de ser apreciado.
Vamos a eles.
De uma caixa da Versátil com filmes do cineasta francês Claude Chabrol, pesquei “Ophélia”, filme de 1963 em que, como o título antecipa, a clássica história de Hamlet é sacada pelo diretor para uma reconstrução contemporânea. É algo elegante, de imagens tão compostas quanto uma equação do segundo grau, luzes e sombras sob medida para criar aquele clima de desconfiança que faz parte do tom conspirativo da obra original.
O príncipe inconformado se torna o jovem Ivan e, como diz o título, há uma Ofélia – uma garota a quem ele atribui o papel – assim como a mãe e o tio, usurpadores do pai. Ivan, danado da vida, passa na frente de um cinema tosco e vê o cartaz do “Hamlet” estrelado por Lawrence Olivier.
É o bastante pra se dar conta do paralelismo entre sua própria situação e a do atormentado jovem dinamarquês.
Há sempre algo de podre num reino qualquer, seja lá, ali ou acolá. Só não entendi porque Chabrol recorreu à sua Ofélia sessentista para dar nome ao filme, já que ela não tem essa presença tão determinante na sua readaptação. Muito mais marcante é olhar sanguíneo da atriz italiana Alida Valli, que eu cismei de já ter temido antes – mas uma boa meia hora de pesquisa na internet acabou com minha ilusão de que a havia visto com destaque no navio de “...E la nave vá”, o filme mais operístico de Federico Fellini. Nada confirmado. Foi impressão falsa ou participação não creditada. O que importa é que ela faz picadinho de vidro moído do neo-Hamlet e seu entorno. Se for por aí, o filme deveria se chamar “Gertrudes”.
Sim, o DVD player foi aprovado na experiência, embora, por ser um mini-equipamento, eu tenha sentido falta de alguns pitocos – como o velho e bom “stop”. Tem não, viu? Mas a pessoa resolve dando um but seco, ou seja, abrindo a tampinha que fecha a parte onde o disco fica e roda. É bonitinho o equipamento. E funcional, à maneira miniaturizada dele.
Vamos ao segundo filme, que foi “Lanternas Vermelhas”, aquela coisa que tomou conta das audiências bem no início dos anos 90 (91, segundo minhas pesquisas nos sites), com a descoberta no ocidente do chinês Zhang Yimou (escrito nesta ordem ou na ordem inversa, essa coisa tão a cara do mundo oriental).
Houve uma onda desse cinema naquela época, quando vimos, além deste, títulos como “Adeus minha concubina”, “O tigre e o dragão”, “Viver” e alguns cujo nome me escapa. Assisti a um deles – um dos mais pungentes melodramas a que vi na vida, no Cine Brasília, quando aqui cheguei em 1995, que me moeu a alma. Saí tão realizado quanto devastado – sou fã de melodramas.
Pausa aqui: é por isso que gosto de escrever sempre, não perder a prática. A busca das palavras fricciona a memória já capenga e os títulos e nomes esquecidos chegam, acenando as mãozinhas num desfile memorialístico. Sim, acabei de lembrar que filme era esse do final do parágrafo anterior: o grande “Amor e Sedução” (Jou Dou- 1990), do mesmo, veja só (isso eu não lembrava mesmo) Zhang Yimou, e com a mesma (lembrava menos ainda) Gong Li, a super-atriz oriental que estrela “Lanternas Vermelhas”, fazendo a estudante desvalida que precisa abandonar a universidade para virar a quarta esposa de um chinês ricaço nos anos 1920.
“Lanternas” é um estupor de uso de cores – vermelhões berrantes (berrantes mas à maneira oriental, entenda bem) em contraste com o cinza azulado cor de morte dos telhados do conjunto arquitetônico onde o tal ricaço mantém suas quatro esposas. Um harém silencioso e opressivo. Neste espaço algo big brother, elas se engalfinham com toda classe, os empregados ajudam a entornar o caldo, as intrigas banham tudo, uma joga as outras como as demais, nãos se sabe bem que terreno é este onde se pisa, e a jovem recém-chegada vê sua estabilidade psíquica escorrer pelas paredes daquelas construções cuja dureza é quebrada apenas pela claridade colorida das lanternas.
Essas são acesas sempre numa das quatro casas onde o senhor passará a noite – nunca em todas elas. Há uma guerra de privilégios entre quatro mulheres praticamente escravizadas, num filme que nunca sai desse sufocante ambiente e que se aplica com destreza a fazer do seu cenário quase um quarto personagem – por vezes, mais destacado do que o próprio dono do pedaço, que só aparece assim, aos pedaços, poucas vezes integralmente. Porque o espaço ali, o conflito ali, a guerra não declarada é entre as quatro esposas cujas vidas são ditadas pelo efeito dessas lanternas.
Um grande filme, uma coisa pictórica como poucas vezes se vê, concentrado muito fortemente na linguagem puramente visual, quase uma série de telas animadas escorrendo o sangue invisível dessa asfixia emocional que vem tanto de cima quando das laterais.
Não lembrava da força desse filme e só de revê-lo numa tela tão pequena fico imaginando o quanto ele é devastador – no bom sentido – numa projeção convencional de cinema.
Deu uma vontade absurda de ir atrás de “Amor e sedução”, mas deve ser bem difícil encontrar uma cópia. Streaming nem pensar, que o mercado desse segmento é bem volúvel, difícil de se apostar. Nessas horas vê-se o quanto um acervo físico é válido, contra todas as marés do descarte e desse falso sentimento de desapego que de correto virou só um modismo de ostentação contrária.



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