quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

DOIS FILMES, UM VEREDICTO E NENHUMA CERTEZA

 


Foram duas experiências opostas – e contra a corrente dominante das expectativas e avaliações. Depois de “O agente secreto”, meu retorno aos cinemas após um ano distante se completou esses dias com “Foi apenas um acidente” e “Nouvelle Vague”. Ao contrário de todo mundo, não tive uma boa fruição com o primeiro. E contra o que se tem dito do segundo, gostei às pampas de cada minuto – veria novamente com satisfação. Vamos aos fatos.

Ouvi elogios soltos sobre o filme iraniano coproduzido pela França. Aquele cartaz com aquela van no meio do nada é sempre uma sugestiva imagem cinematográfica que quebra nossa indiferença. Mas não fui além disso – nada li sobre o filme, assim como havia feito com “O agente secreto”. Apenas entrei na sala e meio que disse à tela: vai lá, manda ver, vou tentar navegar no que você me entregar, a experiência é soberana.

Não costumo assistir a filmes sem antes ter lido minimamente sobre eles. Nem me incomoda muito que antecipem boa parte do que vou ver – a visão pessoal mesmo, lá na sala escura, é maior que tudo o que foi dito. Você pode entrar com uma expectativa gigantesca e assistir a um filme-rato que só parecia uma montanha. Ou o contrário. E acredito muito nos critérios de cada um: construir uma filmografia pessoal é uma obra de anos de sensibilidade feita à base de tijolinhos grudados a cada sessão, cada fruição específica. Respeitando a história de como cada um descobriu, ficou encantado, aproveitou ao máximo, irritou-se ou maravilhou-se com os filmes a que assistiu.

Então já posso dizer: minha baça opinião sobre “Foi apenas um acidente” provavelmente eu vou conhecer mesmo é à medida que escrevo isso aqui, porque não é nada estranho pra mim descobrir minhas próprias avaliações enquanto caço palavras para construir uma definição. E não terá sido diferente do que foi dito sobre o filme – sim, após vê-lo, fui checar o que estão dizendo de fato sobre ele. Encontrei uma miríade de interpretações mas todas, TODAS as que li, rendendo glórias ao filme. Muito pela absurda e impressionante condição em que foi feito, praticamente às escondidas, para que cineasta, equipe, técnicos, atores não terminassem nas masmorras do regime teocrático iraniano. Descobri, após ver o filme (e isso faz muita diferença) que “Foi apenas um acidente” foi feito na clandestinidade. Você consegue imaginar um filme – e ainda mais um filme como este, rodado praticamente todo em externa – feito às escondidas? O diretor, Jafar Panahi, deve estar na França após condenado no Irã por ter feito outros filmes no mesmo tom de denúncia.

Já estou misturando tudo. É preciso voltar e organizar:

1.Como disse, entrei na sala sem saber quase nada sobre “Foi apenas...”.

2.Como também disse, é raro eu me atrever a fazer isso – uma informação por mínima que seja me situa muito melhor, sinto necessidade.

3.Sem ter lido nada sobre o filme, não sabia sequer que é um típico filme político de resistência iraniana – embora, claro, pelas próprias imagens de divulgação ficasse claro que era algo passado entre o Afeganistão e o Iraque. E certamente muito político.

4.Com isso, gastei energia em buscar me certificar de informações que o filme não entrega de primeira – como o local da história. As roupas e o jeito ocidentalizado da personagem que é uma fotógrafa me deixou desconfiado de que poderia não ser o Irã. Fui meio fundamentalista, perdão. Mas mantive a dúvida até o final.

5.Com isso, fiquei desatento a algo importantíssimo, que é o uso do som, indicativo que leva ao conflito inicial: um homem que foi torturado identifica seu torturador na oficina mecânica onde trabalha apenas por reconhecer o som da perna artificial usada por ele.

Isso detona tudo e o filme acontece, até pra mim que nada li antes. O torturado sequestra o torturador – o que, no início parece algo de uma violência sem igual, mas os sinais estão trocados e essa é uma das graças do filme – e decide enterrá-lo vivo.

Mas brota a dúvida, e a dúvida é a mãe do filme, seu fulcro principal. Todas as sequencias dentro da van, pra cima e pra baixo, os imprevistos, o vai-e-vem muitas vezes atrapalhado que vem em seguida e se estende pelo filme inteiro é um desenvolvimento audiovisual desta dúvida: afinal, o homem é ou não o torturador? Apenas um som suspeito é capaz de garantir sua identidade e valer essa vingança mortal?  Sim, porque nenhum dos torturados viu claramente o rosto do seu torturador – razão pela qual o mecânico que primeiro desconfiou tem que sair reunindo outros torturados para ter certeza.

Não há certeza. Há dúvida. Um torturado tem o direito de se vingar de quem o torturou se não tem certeza de que ele é ele mesmo? A diferença está aí, entre aquele grupo de pessoas meio estabanadas,  completamente traumatizados pelo passado de violência, e o homem em julgamento improvisado. Claramente se estabelece a diferença entre eles – e, para além da questão política – é isso o que recobre de nobreza humana os torturados. Eles se permitem ter dúvida, ainda que isso os incomode tremendamente. A ética deles está ali, toda ali. Nisso, é um ótimo filme, sim – e, como lida com uma situação política que os americanos adoram odiar, certamente vai levar o Oscar que poderia ir pra “O agente secreto”, meu palpite. O peso político é mais forte do que a densidade cinematográfica mas a gente sabe que aquele costuma prevalecer sobre este nessas premiações do grande cinema mundial. Falando nisso, eu sequer sabia que “Foi apenas...” ganhou a Palma de Ouro mais recente.

Só que, pra mim, como viciado em cinema que retorna às salas após um ano afastado, foi demais o arrastar daquela situação por vezes absurda – mas tudo coerente dentro do filme, e de forma inclusive a enriquecê-lo. Acontece muito mais do que se espera a partir deste plot inicial. São novas situações por onde escapa toda a nossa humanidade, seja no Irã ou em Santa Catarina. Mas é um filme difícil de ver no sentido de, ainda que tentando aqui e ali soar leve, ser sempre muito cru. Há uma cena gigantesca de um plano parado: um homem amarrado a uma árvore, vendado, enquanto o que se diz em torno dele contém toda uma epopeia de violência política. É uma grande cena, tanto mais gigantesca quanto mais parada – a imobilidade da dor que ali atinge a todos.

Dito isso, será que eu me enganei de gostei bastante e “Foi apenas...”? Vou fazer como o filme, deixar no ar. Talvez eu não estivesse preparado. Como alguém que foi privado de alimentação durante um mês e tem uma indigestão ao comer o primeiro e exagerado prato de comida. O fato é que, como fruição – e o cinema é múltiplo, há gêneros e gêneros, possibilidades e experimentações as mais vastas, além do convencional puro e simples – eu fiquei achando que “Foi apenas..” tá meio superestimado.


Vamos a “Nouvelle Vague” que de superestimado não tem nada. Esperava-se que o filme, uma reconstrução do momento em que Jean-Luc Godard e companhia fundiam uma nova linguagem cinematográfica quebrando velhas convenções do cinema francês e mundial, fosse ele também um filme à moda do novo cinema francês dos anos 60.

Ah, sim, digo isso porque neste caso li um pouco sobre o filme antes de vê-lo, no telão maravilha do Cine Brasília, pra onde enfim também retornei. Ainda bem que fui prevenido pelo pouco que li – eu também poderia ter caído nesta armadilha de esperar um filme-experimento à la Godard. A queixa geral era de decepção, porque “Nouvelle Vague”, o filme, é bem  convencional, tão certinho, tão americano, nada tendo a ver com as rupturas do movimento que o inspirou.

Primeiro acho que hoje em dia não faz sentido algum evocar as rupturas do “Acossado”, que é o filme cuja gravação e edição é reconstituída em “Nouvelle Vague”: já foi tudo absorvido, a linguagem do cinema mundial é uma bocona aberta que sabe muito bem incorporar cada novidade que cada novo movimento coloca nas telas. Não iria impactar nada. A opção do diretor Richard Linklater, cuja folha corrida inclui coisas convencionais como a trilogia iniciada com “Antes do amanhecer” e até o filme-chiclete “Escola do Rock”, foi, à custa de um clássico branco e preto e de um padrão quadrado (4X3), contar sua história da forma mais tradicional. E quer saber? Funciona que é uma beleza. Pra mim foi um passeio descomplicado sobre a forma como o enfant terrible Godard e seus amigos, mais ele que seus amigos, meteu os peitos contra o que não era permitido ou esperado e fez seu filme da maneira mais desconcertante possível. Hoje sabemos, estamos bestas de saber, sobre a mudança de rumos que “Acossado” provocou. Ali, na hora de conceber, planejar (?!), filmar, editar, a história era outra.

E se o filme feito sobre este filme opta por usar justamente os padrões convencionais que o filme e o movimento homenageado por ele contestam em outro momento histórico, não deixa de ser uma ironia bem ao modo Godard.

Assistam, divirtam-se, abusem do bom humor e não esperem uma revolução mas sim uma bela fruição. 

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