Foram
duas experiências opostas – e contra a corrente dominante das expectativas e
avaliações. Depois de “O agente secreto”, meu retorno aos cinemas após um ano distante
se completou esses dias com “Foi apenas um acidente” e “Nouvelle Vague”. Ao contrário
de todo mundo, não tive uma boa fruição com o primeiro. E contra o que se tem
dito do segundo, gostei às pampas de cada minuto – veria novamente com
satisfação. Vamos aos fatos.
Ouvi
elogios soltos sobre o filme iraniano coproduzido pela França. Aquele cartaz
com aquela van no meio do nada é sempre uma sugestiva imagem cinematográfica
que quebra nossa indiferença. Mas não fui além disso – nada li sobre o filme,
assim como havia feito com “O agente secreto”. Apenas entrei na sala e meio que
disse à tela: vai lá, manda ver, vou tentar navegar no que você me entregar, a
experiência é soberana.
Não
costumo assistir a filmes sem antes ter lido minimamente sobre eles. Nem me
incomoda muito que antecipem boa parte do que vou ver – a visão pessoal mesmo,
lá na sala escura, é maior que tudo o que foi dito. Você pode entrar com uma
expectativa gigantesca e assistir a um filme-rato que só parecia uma montanha.
Ou o contrário. E acredito muito nos critérios de cada um: construir uma
filmografia pessoal é uma obra de anos de sensibilidade feita à base de tijolinhos
grudados a cada sessão, cada fruição específica. Respeitando a história de como
cada um descobriu, ficou encantado, aproveitou ao máximo, irritou-se ou
maravilhou-se com os filmes a que assistiu.
Então já
posso dizer: minha baça opinião sobre “Foi apenas um acidente” provavelmente eu
vou conhecer mesmo é à medida que escrevo isso aqui, porque não é nada estranho
pra mim descobrir minhas próprias avaliações enquanto caço palavras para construir
uma definição. E não terá sido diferente do que foi dito sobre o filme – sim,
após vê-lo, fui checar o que estão dizendo de fato sobre ele. Encontrei uma
miríade de interpretações mas todas, TODAS as que li, rendendo glórias ao filme.
Muito pela absurda e impressionante condição em que foi feito, praticamente às
escondidas, para que cineasta, equipe, técnicos, atores não terminassem nas
masmorras do regime teocrático iraniano. Descobri, após ver o filme (e isso faz
muita diferença) que “Foi apenas um acidente” foi feito na clandestinidade.
Você consegue imaginar um filme – e ainda mais um filme como este, rodado
praticamente todo em externa – feito às escondidas? O diretor, Jafar Panahi,
deve estar na França após condenado no Irã por ter feito outros filmes no mesmo
tom de denúncia.
Já estou
misturando tudo. É preciso voltar e organizar:
1.Como disse,
entrei na sala sem saber quase nada sobre “Foi apenas...”.
2.Como
também disse, é raro eu me atrever a fazer isso – uma informação por mínima que
seja me situa muito melhor, sinto necessidade.
3.Sem
ter lido nada sobre o filme, não sabia sequer que é um típico filme político de
resistência iraniana – embora, claro, pelas próprias imagens de divulgação
ficasse claro que era algo passado entre o Afeganistão e o Iraque. E certamente
muito político.
4.Com isso,
gastei energia em buscar me certificar de informações que o filme não entrega
de primeira – como o local da história. As roupas e o jeito ocidentalizado da
personagem que é uma fotógrafa me deixou desconfiado de que poderia não ser o
Irã. Fui meio fundamentalista, perdão. Mas mantive a dúvida até o final.
5.Com
isso, fiquei desatento a algo importantíssimo, que é o uso do som, indicativo
que leva ao conflito inicial: um homem que foi torturado identifica seu torturador
na oficina mecânica onde trabalha apenas por reconhecer o som da perna artificial
usada por ele.
Isso
detona tudo e o filme acontece, até pra mim que nada li antes. O torturado
sequestra o torturador – o que, no início parece algo de uma violência sem igual,
mas os sinais estão trocados e essa é uma das graças do filme – e decide
enterrá-lo vivo.
Mas brota
a dúvida, e a dúvida é a mãe do filme, seu fulcro principal. Todas as
sequencias dentro da van, pra cima e pra baixo, os imprevistos, o vai-e-vem
muitas vezes atrapalhado que vem em seguida e se estende pelo filme inteiro é
um desenvolvimento audiovisual desta dúvida: afinal, o homem é ou não o
torturador? Apenas um som suspeito é capaz de garantir sua identidade e valer
essa vingança mortal? Sim, porque nenhum
dos torturados viu claramente o rosto do seu torturador – razão pela qual o
mecânico que primeiro desconfiou tem que sair reunindo outros torturados para
ter certeza.
Não há
certeza. Há dúvida. Um torturado tem o direito de se vingar de quem o torturou
se não tem certeza de que ele é ele mesmo? A diferença está aí, entre aquele
grupo de pessoas meio estabanadas, completamente
traumatizados pelo passado de violência, e o homem em julgamento improvisado.
Claramente se estabelece a diferença entre eles – e, para além da questão política
– é isso o que recobre de nobreza humana os torturados. Eles se permitem ter
dúvida, ainda que isso os incomode tremendamente. A ética deles está ali, toda
ali. Nisso, é um ótimo filme, sim – e, como lida com uma situação política que
os americanos adoram odiar, certamente vai levar o Oscar que poderia ir pra “O
agente secreto”, meu palpite. O peso político é mais forte do que a densidade cinematográfica
mas a gente sabe que aquele costuma prevalecer sobre este nessas premiações do
grande cinema mundial. Falando nisso, eu sequer sabia que “Foi apenas...”
ganhou a Palma de Ouro mais recente.
Só que,
pra mim, como viciado em cinema que retorna às salas após um ano afastado, foi
demais o arrastar daquela situação por vezes absurda – mas tudo coerente dentro
do filme, e de forma inclusive a enriquecê-lo. Acontece muito mais do que se
espera a partir deste plot inicial. São novas situações por onde escapa toda a
nossa humanidade, seja no Irã ou em Santa Catarina. Mas é um filme difícil de
ver no sentido de, ainda que tentando aqui e ali soar leve, ser sempre muito
cru. Há uma cena gigantesca de um plano parado: um homem amarrado a uma árvore,
vendado, enquanto o que se diz em torno dele contém toda uma epopeia de violência
política. É uma grande cena, tanto mais gigantesca quanto mais parada – a imobilidade
da dor que ali atinge a todos.
Dito
isso, será que eu me enganei de gostei bastante e “Foi apenas...”? Vou fazer
como o filme, deixar no ar. Talvez eu não estivesse preparado. Como alguém que
foi privado de alimentação durante um mês e tem uma indigestão ao comer o
primeiro e exagerado prato de comida. O fato é que, como fruição – e o cinema é
múltiplo, há gêneros e gêneros, possibilidades e experimentações as mais
vastas, além do convencional puro e simples – eu fiquei achando que “Foi
apenas..” tá meio superestimado.
Vamos a “Nouvelle Vague” que de superestimado não tem nada. Esperava-se que o filme, uma reconstrução do momento em que Jean-Luc Godard e companhia fundiam uma nova linguagem cinematográfica quebrando velhas convenções do cinema francês e mundial, fosse ele também um filme à moda do novo cinema francês dos anos 60.
Ah, sim,
digo isso porque neste caso li um pouco sobre o filme antes de vê-lo, no telão
maravilha do Cine Brasília, pra onde enfim também retornei. Ainda bem que fui
prevenido pelo pouco que li – eu também poderia ter caído nesta armadilha de
esperar um filme-experimento à la Godard. A queixa geral era de decepção,
porque “Nouvelle Vague”, o filme, é bem convencional, tão certinho, tão americano,
nada tendo a ver com as rupturas do movimento que o inspirou.
Primeiro
acho que hoje em dia não faz sentido algum evocar as rupturas do “Acossado”,
que é o filme cuja gravação e edição é reconstituída em “Nouvelle Vague”: já
foi tudo absorvido, a linguagem do cinema mundial é uma bocona aberta que sabe
muito bem incorporar cada novidade que cada novo movimento coloca nas telas.
Não iria impactar nada. A opção do diretor Richard Linklater, cuja folha
corrida inclui coisas convencionais como a trilogia iniciada com “Antes do
amanhecer” e até o filme-chiclete “Escola do Rock”, foi, à custa de um clássico
branco e preto e de um padrão quadrado (4X3), contar sua história da forma mais
tradicional. E quer saber? Funciona que é uma beleza. Pra mim foi um passeio
descomplicado sobre a forma como o enfant terrible Godard e seus amigos, mais
ele que seus amigos, meteu os peitos contra o que não era permitido ou esperado
e fez seu filme da maneira mais desconcertante possível. Hoje sabemos, estamos
bestas de saber, sobre a mudança de rumos que “Acossado” provocou. Ali, na hora
de conceber, planejar (?!), filmar, editar, a história era outra.
E se o
filme feito sobre este filme opta por usar justamente os padrões convencionais
que o filme e o movimento homenageado por ele contestam em outro momento
histórico, não deixa de ser uma ironia bem ao modo Godard.
Assistam, divirtam-se, abusem do bom humor e não esperem uma revolução mas sim uma bela fruição.


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