sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O AGENTE DAS ALUSÕES

 


Um filme poroso, vazado, cheio de vazios, carregado de alusões. Uma aventura da vida brasileira que nunca é direta na situação objetiva a que expõe o espectador. Uma construção narrativa que lhe obriga a, junto com o protagonista, reunir os pedaços de uma perseguição cujo fundo político jamais é formulado em termos precisos. O cinema se basta: em “O Agente Secreto”, é mais importante arquitetar uma atmosfera dramática do que fazer uma tradicional reconstituição histórica.

Nos acostumamos à reconstituição histórica, há tempos – e o curioso é que, ironicamente, nem isso nos livrou da sina desse retorno do recalcado que o bolsonarismo trouxe. Mas a questão aqui nem é bem essa: sim, o “filme de ditadura” já é praticamente um subgênero na tradição do cinema brasileiro, esse bicho que resiste bravamente. O que Kleber Mendonça Filho fez, diante dessa gaveta aberta com tantas amostras de qualidade indiscutível – “O que é isso, companheiro?”, “O ano em que meus pais saíram de férias”, “Ainda estou aqui”, entre tantos outros, sem falar em séries televisivas como “Anos Rebeldes” e “Os dias eram assim” – foi mudar o ângulo de observação.

Renovou o gênero à maneira dele – muito ele, recorrendo à sua memoriabilia quase tátil de tão vívida e cultivada, ao estranhamento estético que não deixa a tela esmorecer, à distensão narrativa que sem pressa vai construindo painéis tão calcados na vida rotineira e real, no enxerto de subsituações que conferem colorido àquele painel geral e o ajudam a se tornar ainda mais onipresente, dramático, sufocante ou até catártico como ocorre em “Aquarius”.

“O Agente Secreto” parte de uma perseguição e fuga enquadrada nos meandros menos manchetados da ditadura militar, fugindo do escopo de filme de história para investir numa aproximação quase antropológica da vida recifense – e por extensão, brasileira – no cenário não menos político de 1977. O cinema de Kleber Mendonça Filho tem esse despojamento em enquadrar a vida de toda hora, o momento não-importante, a palavra que não formula sentenças, a imagem que remete sem entregar embrulhado pra presente. Talvez só ele mesmo fosse capaz de abordar esse período da vida brasileira – esse passado que insiste em se fazer presente – dessa maneira nem alegórica nem proclamada. No limite entre o explícito e o sugerido. Haja entrelinhas, mas o cara é bom nisso.

Para o espectador do lado de cá, isso nem sempre é fácil. Meu filme preferido de Kleber Mendonça Filho é “Aquariuis”. Porque, embora entenda e no meu esforço consiga ler as entrelinhas, minha alma cartesiana pede algum grau de explicitação. Não vou brigar comigo mesmo na poltrona do cinema. Nem vou xingar o cineasta. Não é o caso, nem de uma coisa nem de outra. Mas preciso pontuar: algumas sequências de “O Agente Secreto” me deram certa gastura – elas não estragam o filme, claro, mas, a partir do fato de que estamos diante de uma produção que exige do telespectador uma entrega de natureza mais incômoda, na medida em que ele precisa desvendar o filme junto com seu protagonista, aborreceu.

Mendonça Filho não é nem um cineasta nem um roteirista de manual, qualquer um sabe disso. Mas não é difícil concordar com uma regra de manual das mais batidas: aquela segundo a qual cenas explicativas, que precisam de diálogos maiores para levar a quem assiste informações essenciais sobre a narração na tela, assim como dados adicionais que ele precisa ter para processar o que está a assistir, são as mais difíceis no roteiro e na montagem final.

A sequência que, exibida acho que mais de uma hora depois de iniciado o filme, enfim fornece dados para o expectador se situar melhor – melhor na medida que Kleber permite, dentro de sua opção narrativa – incomodou-me por essa dificuldade. Gosto de filmes que instalam uma tensão e a sustentam com maestria. Eu e todo mundo, certo? “Aquarius” faz isso de maneira arrebatadora. Não importar que enfie no curso principal de sua lógica uma série de situações paralelas que, como num solo de jazz, por mais que saiam da melodia principal sempre sabem voltar a ela e a enriquecer. Mas, nesta sequencia de “O Agente Secreto”, eu esqueci a música – o clima, a tensão, o fio desencapado que o filme jogou na tela ao se iniciar com aquele cadáver de três dias largado em frente a um posto de gasolina no carnaval.

A sequência demora, mas não é isso. A sequência é um vai-e-vem de plano e contraplano, numa sala fechada (no edifício e logo acima do Cine São Luiz, aquele palácio sentimental de Recife, mas nem isso ajuda), com uma carga de explicações liberadas aos poucos, nem por isso suficiente para preencher todas as lacunas (mas na lógica narrativa do filme isso é lógico), um empilhamento de dados que precisamos organizar junto com o protagonista. É uma cena necessária – ou pelo menos a entrega dessas informações. Mas num filme tão exposto ao sol de Pernambuco, tinha que ser numa sala vedada, ainda que na vida real este tipo de conversa se tenha neste tipo de lugar (embora a regra da vida dificilmente seja válida para o idioma do cinema)?

Na sequência final, tão amarga mas igualmente tão necessária também entramos numa sala limpa, quase branca, um ambiente tão pouco cinematográfico. Aqui o diálogo cresce, toma tudo, precisa ocupar todos os fotogramas. Soa mais necessário, mais coerente. Aqui o filme nos remete diretamente para a forma como um presente brasileiro distraído faz pouco caso de seu passado histórico ainda tão determinante. É uma leitura fundamental, um desfecho que, quanto mais desanimador, mais revelador. Mas, num ambiente entre quatro paredes mudas, há sempre o risco de uma investida algo Quentin Tarantino onde a tradição grita muito mais por um Glauber Rocha, um Nelson Pereira dos Santos, um Cacá Diegues. Nessas horas, sobra texto e falta cinema. Ninguém é perfeito, mesmo. Com cuidado pra não antecipar pra quem não viu o filme ainda, mas a imagem de um pen-drive jogado numa gaveta qualquer não seria mais expressiva  da negação que gera novos passados no presente? Ainda que a visão de um laboratório que substitui um cinema seja igualmente reveladora?

Dito isso, “O Agente Secreto”, que eu demorei pra assistir e até temi não conseguir ver no cinema (outra história, em outro post), é esse suspense incômodo onde certa falta de sintonia completa com o que vai na tela faz parte da experiência que o filme propõe. É uma nova e reveladora, importantíssima abordagem da antropologia urbana da nossa mais recente ditadura, que instala no centro da cena o abuso de  influência empresarial que os governo de farda impuseram, permitiam, incentivavam  e pressupunham. Algo que os mauricinhos do Partido Novo jamais gostariam que fosse visto nos cinemas.

Kleber Mendonça, Wagner Moura e esse elenco tão especial – dona Tânia, minha conterrânea incluída e destacada – reconstituíram não apenas os objetos, marcas, salas e repartições de 1977; eles de fato trouxeram para o brasileiro de hoje a representação completa do que era viver sob uma ditadura nas vielas do poder exercido ou numa delegacia de polícia, ou num departamento de universidade, ou na sala de reuniões de uma grande empresa. Isso não havia de forma tão forte no nosso audiovisual (“Os dias eram assim”, a série da Globo que o Brasil não quis ver, contém um pouco disso, pra fazer justiça, embora não seja o foco principal).

Como todo grande filme, que enche o peito e se propõe sem pequenez, é do tipo que deve, precisa, suporta ser visto mais de uma vez. Vamos voltar a ele.


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