Um filme
poroso, vazado, cheio de vazios, carregado de alusões. Uma aventura da vida
brasileira que nunca é direta na situação objetiva a que expõe o espectador.
Uma construção narrativa que lhe obriga a, junto com o protagonista, reunir os
pedaços de uma perseguição cujo fundo político jamais é formulado em termos precisos.
O cinema se basta: em “O Agente Secreto”, é mais importante arquitetar uma
atmosfera dramática do que fazer uma tradicional reconstituição histórica.
Nos
acostumamos à reconstituição histórica, há tempos – e o curioso é que,
ironicamente, nem isso nos livrou da sina desse retorno do recalcado que o
bolsonarismo trouxe. Mas a questão aqui nem é bem essa: sim, o “filme de
ditadura” já é praticamente um subgênero na tradição do cinema brasileiro, esse
bicho que resiste bravamente. O que Kleber Mendonça Filho fez, diante dessa gaveta
aberta com tantas amostras de qualidade indiscutível – “O que é isso, companheiro?”,
“O ano em que meus pais saíram de férias”, “Ainda estou aqui”, entre tantos
outros, sem falar em séries televisivas como “Anos Rebeldes” e “Os dias eram assim”
– foi mudar o ângulo de observação.
Renovou
o gênero à maneira dele – muito ele, recorrendo à sua memoriabilia quase tátil
de tão vívida e cultivada, ao estranhamento estético que não deixa a tela esmorecer,
à distensão narrativa que sem pressa vai construindo painéis tão calcados na
vida rotineira e real, no enxerto de subsituações que conferem colorido àquele
painel geral e o ajudam a se tornar ainda mais onipresente, dramático,
sufocante ou até catártico como ocorre em “Aquarius”.
“O
Agente Secreto” parte de uma perseguição e fuga enquadrada nos meandros menos manchetados
da ditadura militar, fugindo do escopo de filme de história para investir numa
aproximação quase antropológica da vida recifense – e por extensão, brasileira –
no cenário não menos político de 1977. O cinema de Kleber Mendonça Filho tem
esse despojamento em enquadrar a vida de toda hora, o momento não-importante, a
palavra que não formula sentenças, a imagem que remete sem entregar embrulhado
pra presente. Talvez só ele mesmo fosse capaz de abordar esse período da vida
brasileira – esse passado que insiste em se fazer presente – dessa maneira nem
alegórica nem proclamada. No limite entre o explícito e o sugerido. Haja
entrelinhas, mas o cara é bom nisso.
Para o
espectador do lado de cá, isso nem sempre é fácil. Meu filme preferido de
Kleber Mendonça Filho é “Aquariuis”. Porque, embora entenda e no meu esforço consiga
ler as entrelinhas, minha alma cartesiana pede algum grau de explicitação. Não
vou brigar comigo mesmo na poltrona do cinema. Nem vou xingar o cineasta. Não é
o caso, nem de uma coisa nem de outra. Mas preciso pontuar: algumas sequências
de “O Agente Secreto” me deram certa gastura – elas não estragam o filme,
claro, mas, a partir do fato de que estamos diante de uma produção que exige do
telespectador uma entrega de natureza mais incômoda, na medida em que ele
precisa desvendar o filme junto com seu protagonista, aborreceu.
Mendonça
Filho não é nem um cineasta nem um roteirista de manual, qualquer um sabe disso.
Mas não é difícil concordar com uma regra de manual das mais batidas: aquela
segundo a qual cenas explicativas, que precisam de diálogos maiores para levar
a quem assiste informações essenciais sobre a narração na tela, assim como
dados adicionais que ele precisa ter para processar o que está a assistir, são
as mais difíceis no roteiro e na montagem final.
A sequência
que, exibida acho que mais de uma hora depois de iniciado o filme, enfim
fornece dados para o expectador se situar melhor – melhor na medida que Kleber
permite, dentro de sua opção narrativa – incomodou-me por essa dificuldade. Gosto
de filmes que instalam uma tensão e a sustentam com maestria. Eu e todo mundo,
certo? “Aquarius” faz isso de maneira arrebatadora. Não importar que enfie no
curso principal de sua lógica uma série de situações paralelas que, como num
solo de jazz, por mais que saiam da melodia principal sempre sabem voltar a ela
e a enriquecer. Mas, nesta sequencia de “O Agente Secreto”, eu esqueci a música
– o clima, a tensão, o fio desencapado que o filme jogou na tela ao se iniciar
com aquele cadáver de três dias largado em frente a um posto de gasolina no
carnaval.
A
sequência demora, mas não é isso. A sequência é um vai-e-vem de plano e
contraplano, numa sala fechada (no edifício e logo acima do Cine São Luiz,
aquele palácio sentimental de Recife, mas nem isso ajuda), com uma carga de
explicações liberadas aos poucos, nem por isso suficiente para preencher todas
as lacunas (mas na lógica narrativa do filme isso é lógico), um empilhamento de
dados que precisamos organizar junto com o protagonista. É uma cena necessária –
ou pelo menos a entrega dessas informações. Mas num filme tão exposto ao sol de
Pernambuco, tinha que ser numa sala vedada, ainda que na vida real este tipo de
conversa se tenha neste tipo de lugar (embora a regra da vida dificilmente seja
válida para o idioma do cinema)?
Na
sequência final, tão amarga mas igualmente tão necessária também entramos numa
sala limpa, quase branca, um ambiente tão pouco cinematográfico. Aqui o diálogo
cresce, toma tudo, precisa ocupar todos os fotogramas. Soa mais necessário,
mais coerente. Aqui o filme nos remete diretamente para a forma como um
presente brasileiro distraído faz pouco caso de seu passado histórico ainda tão
determinante. É uma leitura fundamental, um desfecho que, quanto mais
desanimador, mais revelador. Mas, num ambiente entre quatro paredes mudas, há sempre
o risco de uma investida algo Quentin Tarantino onde a tradição grita muito
mais por um Glauber Rocha, um Nelson Pereira dos Santos, um Cacá Diegues. Nessas
horas, sobra texto e falta cinema. Ninguém é perfeito, mesmo. Com cuidado pra
não antecipar pra quem não viu o filme ainda, mas a imagem de um pen-drive
jogado numa gaveta qualquer não seria mais expressiva da negação que gera novos passados no
presente? Ainda que a visão de um laboratório que substitui um cinema seja igualmente
reveladora?
Dito
isso, “O Agente Secreto”, que eu demorei pra assistir e até temi não conseguir
ver no cinema (outra história, em outro post), é esse suspense incômodo onde
certa falta de sintonia completa com o que vai na tela faz parte da experiência
que o filme propõe. É uma nova e reveladora, importantíssima abordagem da antropologia
urbana da nossa mais recente ditadura, que instala no centro da cena o abuso
de influência empresarial que os governo
de farda impuseram, permitiam, incentivavam e pressupunham. Algo que os mauricinhos do
Partido Novo jamais gostariam que fosse visto nos cinemas.
Kleber
Mendonça, Wagner Moura e esse elenco tão especial – dona Tânia, minha conterrânea
incluída e destacada – reconstituíram não apenas os objetos, marcas, salas e repartições
de 1977; eles de fato trouxeram para o brasileiro de hoje a representação completa
do que era viver sob uma ditadura nas vielas do poder exercido ou numa
delegacia de polícia, ou num departamento de universidade, ou na sala de reuniões
de uma grande empresa. Isso não havia de forma tão forte no nosso audiovisual (“Os
dias eram assim”, a série da Globo que o Brasil não quis ver, contém um pouco
disso, pra fazer justiça, embora não seja o foco principal).
Como
todo grande filme, que enche o peito e se propõe sem pequenez, é do tipo que
deve, precisa, suporta ser visto mais de uma vez. Vamos voltar a ele.

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