terça-feira, 31 de março de 2026

ANTES DE TUDO

                                   



O Nordeste monotemático, restrito à seca, à violência e ao fanatismo, é a base de Octávio Santiago para mostrar como se construiu a imagem social da região. O livro, “Só sei que foi assim”, é a transcrição da tese acadêmica do autor que buscou as pistas, evidências e demonstrativos de como foi erigida uma visão preconceituosa da região e de seus habitantes, ou dos que dela vieram, muitas vezes com a concordância manipulada dos próprios originários dos nove estados que a compõem.

Literatura, filmes, poder político, jornalismo, Canudos, Euclides da Cunha, o jornal O Estado de São Paulo, Glauber, Graciliano, embranquecimento, obras da “emergência”, o termo “paraíba”, tudo passa na avenida dessa recuperação e encontra seu lugar no edifício simbólico, mas absolutamente constante, dessa visão redutora de uma grande extensão do país. Importante lembrar que não há nem de longe o menor sinal de cancelamento, que veta obras e autores e nisso extingue no grito a discussão. Octávio Santiago inscreve as grandes representações artísticas da região, da estatura de “Vidas Secas” pra frente, como indiscutíveis relevâncias estéticas, ainda que, justamente por tão marcantes, reforçarem indiretamente a construção dessa imagem social de que nós, nordestinos, parece que nunca conseguiremos nos livrar. E o que fazemos, como autênticos brasileiros?, invertemos o jogo e tiramos o proveito desses, digamos, gracejos (tantas vezes soam apenas como isso) para nos afirmar na contramão do aceito, do elogiável, do esperado.  Nós, nordestinos, não somos exatamente o que se espera. Não é por a gente não ficar chorando o tempo todo essa mágoa que não notamos. A gente se insurge à nossa maneira, como quando reforçamos o sotaque quando ele causa algum estranhamento a alguém por perto.

Na página 156 do livro, um trecho sobre a reação de Raquel de Queiroz à forma como a mídia tratava a seca de 83-84 me lembrou um episódio pessoal. O livro trata aqui, por exemplo, das reportagens do “Fantástico” que fizeram muito sucesso na época e entraram para o livro dos grandes momentos do telejornalismo brasileiro: o repórter chorando diante da criança desnutrida, no casebre da família de flagelados, que brincava com ossos de animais como se fossem o gado de uma fazenda infantil imaginária. Raquel reclama que o jornalismo da época – e o jornalismo da época fazia muito isso, destaque-se – tirava do ângulo das câmeras qualquer elemento que contrariasse a imagem de uma seca rigorosa e de suas vítimas terminais.

A seca de 83-84 foi realmente terrível, não é essa a questão. Mas a gente sabe como se dá maior ênfase ao que, de tão gritante, nem precisa de reforço. Assim, lembra a autora de “O Quinze”, nos anos 80 se evitava, numa reportagem de TV ou fotografia de jornal, qualquer imagem de um canteiro de coentro, por verde onde só se aceitava o amarelo esturricado, ou o enquadramento acidental de alguém mais “gordinho”, por negar o esquelético padrão, tudo para não contrariar o comando dos aquários das redações a milhas e milhas e milhas de distância. Meu episódio entra aqui: devia ser 92 ou 93, eu trabalhava na TV Cabugi e, sim, havia uma seca castigando o sertão nordestino. Chegou a incumbência de enviar uma equipe com cinegrafista e um jornalista pra orientar a captura de imagens do flagelo – mais um. Osair Vasconcelos, que na época comandava a TV, me incumbiu da tarefa.

Chegou o domingo marcado para a viagem e, isso acontece muito comigo, é quase normal, o que ocorre? Céu nublado,  anúncio de chuva desde Natal. Um prenúncio de aguaceiro que, quando mais entrávamos no “sertão”, mais se confirmava. Choveu, muito. Era lindo ver aquela chuva, em retorno. A alegria do habitante do interior, as água escorrendo em veredas reabertas, aquele branco atmosférico que quando mudava de cor era apenas para dar  lugar a um cinza-azulado no céu com promessa de mais chuva. Sempre lembrarei o momento em que chegamos a uma série de  lajedos na região do Trairi, não lembro exatamente o município, onde crianças se banhavam nas águas empoçadas nas pedras depois das chuvas que vinham caindo desde a noite anterior. Uma imagem tão forte quando a baleia de Graciliano trazendo um preá morto para oferecer a Fabiano e Sinhá Vitória – mas porque a primeira visão, a literária, tem que se sempre superior à segunda, esta que as câmeras da TV Cabugi captaram, em valor absoluto? É disso que o livro de Octávio Santiago trata.  

A viagem estava perdida? Qual nada. Estava perdida para o povo do “Fantástico”, mas não para a TV Cabugi, feita por nordestino invocados prontinhos para virar o jogo. Passamos  o dia no interior, captamos uma enchente de belas imagens, um riachão de depoimentos, uma enciclopédia visual daquele dia de volta das chuvas que faria o amigo e colega Sérgio Farias escrever aqueles textos tão dele e tão de todo mundo – tão representativo desse nordestino que somos e que, se não reforçam preconceitos, não servem. Pra gente serve, sempre serviram. Não me lembro de o “Fantástico” ter usado algo; acho que pra eles, com uma rede inteira espalhada pelo país para abastecer sua vitrine do domingo à noite, aquilo foi só um esforço sem resultados práticos. Pra nosso telejornal local, era um tesouro na primeira edição da segunda-feira que marcou a volta do inverno. Na trilha sonora, numa época em que ainda não havia o rigor da cobrança de direitos autorais, não usamos nem Elomar, nem o Quinteto Armorial (poderíamos, ficaria muito bom), nem Luiz Gonzaga. Fomos de “Chovendo na Roseira”, de Tom Jobim, com Elis. Nada menos regional, nordestino, apequenado. Somos brasileiros, tanto quanto os “sulistas” de Novo Hamburgo.

Este livro me faz feliz, como diria o baiano de Santo Amaro, outro que praticamente nada se deixa reduzir aos estereótipos tão encruados na alma pátria. É uma reparação histórica, como hoje fica bem dizer, mas é antes de tudo um afago intelectual de justiçamento sem sangue – antes, pelo imaginário. Descobrindo como fomos moldados na mente dos não-nordestinos, ganhamos consciência completa dessa construção e ficamos mais fortes para contestar tudo o que está por trás da sentença euclidiana. Sim, aquela mesma que durante décadas pensamos que era algo a nosso favor, mas que na tessitura argumentativa de Octávio Santiago evidencia-se como apenas mais um biombo por trás do qual se desenhava para o “Sul” dominante a imagem de um nordestino nem um pouco forte, mas letárgico, incapaz e previamente derrotado pela natureza – aquela ao redor ou à de sua própria constituição como pessoa, se é que estava à altura dessa classificação.

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