Deu um alívio terminar de ler “O Morro dos Ventos Uivantes” que eu vou lhe dizer.
Eu sei que é um clássico cabeludo, do tipo penteado
nas melhores casas, mas, olha, o único livro de Emily Brontë, que com as irmãs Anne
e Charlotte formou um trio de improváveis escritoras escandalosas na Inglaterra
da era vitoriana, por baixo da capa protetora da fama de filhas bem comportadas
e discretas de um pastor interiorano, pegou pesado pra mim.
Pra situar esse meu sobressalto, vamos dizer que os
livros – os bons, os ruins, os clássicos, os modernos, os revolucionários, os
inovadores, os de gênero, os de bolso e os de capa dura – produzem dois tipo de
efeitos em quem lê: reverência coletiva (pra não fugir à regra social) e reação
pessoal (aquela na qual nem adianta mentir pra si mesmo).
Tenho uma amiga leitora cabeluda, ex-revisora de uma
editora acima de qualquer suspeita, jornalista exigente, que detestou “Madame
Bovary”. Acontece, porque as variáveis de cada um pesam no processo. Penei pra
ler as 271 páginas do clássico de ficção científica “Neuromancer”, de William
Gibson, mas não posso dizer que não gostei – a questão é que precisei ler em apenas
dois dias pra não me desconectar do texto, sob risco de perdê-lo para sempre no
espaço sideral. É uma algaravia maravilhosa se você não deixar o fio narrativo
escorrer no meio do caos das palavras (e, desconfio, a verdadeira fonte de
Ridley Scott para fazer “Blade Runner”).
Já um livro considerado por muitos como temerário
(meu filho Bernardo já me disse que “tem medo” de ler) me deixou nas nuvens – o
“Grande Sertão”, o céu literário de João Guimarães. Dificuldade zero. Só
precisei ler meio que em “voz alta” as duas primeiras páginas e o resto foi
direto ao cérebro e ao deleite absoluto.
Mas, voltemos ao “Morro”. Não gostei nada nada de me
sentir preso, tanto quanto os personagens, naqueles dois “sítios” cheios de
turfa, neblina e trilhas enevoadas da Inglaterra vitoriana mais profunda do que
os vales do Goiás. Experimentei involuntariamente a mesma sensação dos anti-heróis
Hearthcliff e Catherine (as duas, porque o livro ainda tem essa coisa Cem Anos
de Solidão de nomes que se repetem). Quase sufoquei de isolamento, vivenciando
a mesma agonia prisional ao ar livre que tortura os demais ocupantes do Morro
dos Ventos Uivantes e da Granja da Cruz do Tordo.
A gente passa o livro inteiro entre essas duas
propriedades, e não se sabe qual das duas pode ser mais asfixiante – mentira, a
segunda é bem pior, não me deixem dizer besteira no calor da empolgação. Nisso,
a Brontë foi muito eficiente com os recursos que tinha no seu tempo de escrita,
levando em conta que a realidade dela
não era muito diferente da exposta no livro, a gente imagina. Mas eu nunca
gostei muito de ambientes rurais e aí entra o componente pessoal que contraria
aquela “reverência coletiva” a que me referi lá no início.
Sempre tive fascínio pelas cidades, especialmente
pelas grandes cidades. Claro, nasci e cresci em cidade pequena, interior
clássico. Desde que peguei minha primeira revista em quadrinhos do Homem Aranha
passei a só me interessar por Campina Grande pra diante, já que Nova York ficava
tão inacessível.
Quase bebê, bem antes de saber de Peter Parker e
similares, lembro de meu pai me largar na casa dos meus avós, num sitio
localizado a quilômetros da cidade onde morávamos. Era o fim. Eu era muito
pequeno, adorava meus avós, claro, mas hoje, aos 60 anos (e muito antes disso)
tenho claramente a lembrança do incômodo que aquilo me causava. Sítios não
combinam muito comigo até hoje. Pra um fim de semana, vai – nada além disso.
E o clássico “Morro” lhe obriga a ficar detido neste fim de mundo sem
oferecer praticamente nenhuma chance de respirar outros ares. Eu sei que é tudo
coerente e de muita força literária, ok, mas há um efeito sensorial de que não
consigo escapar.
Eu tinha que encontrar uma chave pra seguir adiante
e o que me ocorreu foi outro elemento consagrado do livro que, este sim,
agradou-me: o aspecto gótico. Li “O Morro” usando os óculos da literatura de
gênero, que este livro certamente ajudou a consolidar. Há muito de sobrenatural
e de “além da imaginação” nas entrelinhas do livro – muito de sugestão jogada
no meio de um texto que pode ser menos substantivo do que sua massa de palavras
sugere.
O conceito de literatura de gênero está ligado à consolidação de determinados temas,
enfoques, aproximações feitas logo após a fase das inovação, das invenções.
Para os entendidos mais generosos, o escritor respeitado como criador de uma nova
literatura tem o grande mérito de haver instalado uma outra forma de escrever, quebrando paradigmas com
brilhantismo. Machados e Guimarães.
Já o pobre autor de livros de gênero – Stephen King,
Agatha Christie e assemelhados – vem para consolidar essa criação inicial
dando-lhe uma forma pasteurizada cuja importância vem, ironicamente, do fato de
tornar tudo mais padronizado. E daí vem o gótico, o terror, o policial, o noir,
a fantasia. Até hoje não gosto muito de fantasia, na literatura ou no cinema (somente
a reprise da série Senhor dos Aneis no cinema me deixou mais curioso quanto a
isso).
Mas gosto da literatura de gênero em geral, não me
incomoda a “produção em massa”, o aspecto condenado pela Escola de Frankfurt. O
que seria de mim sem a editora Abril dos anos 70 e 80? De muitos de nós? E da
Editora Brasil América, a velha Ebal de guerra?
Então, acionando a chave da literatura de gênero, o “Morro”
adquiriu uma forma mais palatável pra mim. Embora o título, tão consagrado, esteja
mais para fundador do que para reprodutor de um conceito genérico literário.
Mas, como disse uma booktuber que eu sigo (não
atirem pedras, por favor), este ainda é o tipo de livro que jamais vou querer
reler. A não ser que o alívio vire um outro tipo de curiosidade mais à frente,
não sei.

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