quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O MORRO ME DERRUBOU


Deu um alívio terminar de ler “O Morro dos Ventos Uivantes” que eu vou lhe dizer.

Eu sei que é um clássico cabeludo, do tipo penteado nas melhores casas, mas, olha, o único livro de Emily Brontë, que com as irmãs Anne e Charlotte formou um trio de improváveis escritoras escandalosas na Inglaterra da era vitoriana, por baixo da capa protetora da fama de filhas bem comportadas e discretas de um pastor interiorano, pegou pesado pra mim.

Pra situar esse meu sobressalto, vamos dizer que os livros – os bons, os ruins, os clássicos, os modernos, os revolucionários, os inovadores, os de gênero, os de bolso e os de capa dura – produzem dois tipo de efeitos em quem lê: reverência coletiva (pra não fugir à regra social) e reação pessoal (aquela na qual nem adianta mentir pra si mesmo).

Tenho uma amiga leitora cabeluda, ex-revisora de uma editora acima de qualquer suspeita, jornalista exigente, que detestou “Madame Bovary”. Acontece, porque as variáveis de cada um pesam no processo. Penei pra ler as 271 páginas do clássico de ficção científica “Neuromancer”, de William Gibson, mas não posso dizer que não gostei – a questão é que precisei ler em apenas dois dias pra não me desconectar do texto, sob risco de perdê-lo para sempre no espaço sideral. É uma algaravia maravilhosa se você não deixar o fio narrativo escorrer no meio do caos das palavras (e, desconfio, a verdadeira fonte de Ridley Scott para fazer “Blade Runner”).

Já um livro considerado por muitos como temerário (meu filho Bernardo já me disse que “tem medo” de ler) me deixou nas nuvens – o “Grande Sertão”, o céu literário de João Guimarães. Dificuldade zero. Só precisei ler meio que em “voz alta” as duas primeiras páginas e o resto foi direto ao cérebro e ao deleite absoluto.

Mas, voltemos ao “Morro”. Não gostei nada nada de me sentir preso, tanto quanto os personagens, naqueles dois “sítios” cheios de turfa, neblina e trilhas enevoadas da Inglaterra vitoriana mais profunda do que os vales do Goiás. Experimentei involuntariamente a mesma sensação dos anti-heróis Hearthcliff e Catherine (as duas, porque o livro ainda tem essa coisa Cem Anos de Solidão de nomes que se repetem). Quase sufoquei de isolamento, vivenciando a mesma agonia prisional ao ar livre que tortura os demais ocupantes do Morro dos Ventos Uivantes e da Granja da Cruz do Tordo.

A gente passa o livro inteiro entre essas duas propriedades, e não se sabe qual das duas pode ser mais asfixiante – mentira, a segunda é bem pior, não me deixem dizer besteira no calor da empolgação. Nisso, a Brontë foi muito eficiente com os recursos que tinha no seu tempo de escrita, levando em conta que a  realidade dela não era muito diferente da exposta no livro, a gente imagina. Mas eu nunca gostei muito de ambientes rurais e aí entra o componente pessoal que contraria aquela “reverência coletiva” a que me referi lá no início.

Sempre tive fascínio pelas cidades, especialmente pelas grandes cidades. Claro, nasci e cresci em cidade pequena, interior clássico. Desde que peguei minha primeira revista em quadrinhos do Homem Aranha passei a só me interessar por Campina Grande pra diante, já que Nova York ficava tão inacessível.

Quase bebê, bem antes de saber de Peter Parker e similares, lembro de meu pai me largar na casa dos meus avós, num sitio localizado a quilômetros da cidade onde morávamos. Era o fim. Eu era muito pequeno, adorava meus avós, claro, mas hoje, aos 60 anos (e muito antes disso) tenho claramente a lembrança do incômodo que aquilo me causava. Sítios não combinam muito comigo até hoje. Pra um fim de semana, vai – nada além disso.

E o clássico “Morro” lhe  obriga a ficar detido neste fim de mundo sem oferecer praticamente nenhuma chance de respirar outros ares. Eu sei que é tudo coerente e de muita força literária, ok, mas há um efeito sensorial de que não consigo escapar.

Eu tinha que encontrar uma chave pra seguir adiante e o que me ocorreu foi outro elemento consagrado do livro que, este sim, agradou-me: o aspecto gótico. Li “O Morro” usando os óculos da literatura de gênero, que este livro certamente ajudou a consolidar. Há muito de sobrenatural e de “além da imaginação” nas entrelinhas do livro – muito de sugestão jogada no meio de um texto que pode ser menos substantivo do que sua massa de palavras sugere.

O conceito de literatura de gênero está  ligado à consolidação de determinados temas, enfoques, aproximações feitas logo após a fase das inovação, das invenções. Para os entendidos mais generosos, o escritor respeitado como criador de uma nova literatura tem o grande mérito de haver instalado uma outra  forma de escrever, quebrando paradigmas com brilhantismo. Machados e Guimarães.

Já o pobre autor de livros de gênero – Stephen King, Agatha Christie e assemelhados – vem para consolidar essa criação inicial dando-lhe uma forma pasteurizada cuja importância vem, ironicamente, do fato de tornar tudo mais padronizado. E daí vem o gótico, o terror, o policial, o noir, a fantasia. Até hoje não gosto muito de fantasia, na literatura ou no cinema (somente a reprise da série Senhor dos Aneis no cinema me deixou mais curioso quanto a isso).

Mas gosto da literatura de gênero em geral, não me incomoda a “produção em massa”, o aspecto condenado pela Escola de Frankfurt. O que seria de mim sem a editora Abril dos anos 70 e 80? De muitos de nós? E da Editora Brasil América, a velha Ebal de guerra?  

Então, acionando a chave da literatura de gênero, o “Morro” adquiriu uma forma mais palatável pra mim. Embora o título, tão consagrado, esteja mais para fundador do que para reprodutor de um conceito genérico literário.

Mas, como disse uma booktuber que eu sigo (não atirem pedras, por favor), este ainda é o tipo de livro que jamais vou querer reler. A não ser que o alívio vire um outro tipo de curiosidade mais à frente, não sei.

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