A força avassaladora do teatro como expressão humana e o efeito devastador de uma morte inesperada. Entre dezembro e janeiro, convivi, como nunca esperava, jamais poderia prever, com esses dois elementos. O câncer que nos levou Titina abalou cada uma das células orgânicas e espirituais de quem conviveu com ela, sobretudo amigos e familiares mais próximos. Ao final de uma despedida que nunca poderia passar pela nossa mais remota imaginação – ao menos antes dos nove meses entre o diagnóstico e seu falecimento – veio o vazio misturado com a constatação de uma ausência retumbante, as perguntas habituais nessas ocasiões, a busca por explicações menos rasteiras possíveis e, por fim, também sem a menor previsão, veio este filme. Assisti a “Hamnet” absolutamente enlutado. E não poderia existir neste momento nada tão significativo a empacotar tudo o que vivemos entre dezembro e as duas primeiras semanas de janeiro de 2026.
“Hamnet” foi um obituário sublime. Se as pessoas que não
passaram por nada semelhante recentemente vertem suas lágrimas durante a
exibição, imagine quem acabou de ver um ataque orgânico consumir a vida
espiritual encarnada de uma pessoa tão intensa quanto Titina. Avalie, imagine.
Como pode aparecer justo agora um filme que junta a morte precoce de uma
criança com a gênese provável – só provável, mas aqui a verdade histórica é
imensamente menos importante do que a construção artística – de um marco da
cultura humana? A despedida de Titina e um filme que sai da vida comum para
mostrar o apelo irrefreável da construção teatral coincidindo no mesmo mês, do
mesmo ano que começa...
Isto tudo é para dizer que não havia como assistir a
este “Hamnet” sem a colossal condição pessoal a que o espectador aqui subumbe
sem salvação. Dito isso, há mais – há muito, há tanto. Assim escrito parece que
“Hamnet” é um didático manual visual sobre como se faz uma obra de arte ou do
que ela pode resultar. É isso sim, mas nunca dessa forma direta. É tudo muito
circular no filme, tudo parte do chão da vida e não de qualquer elevação intelectual
estabelecida a priori. “Hamnet” exala vida orgânica, você no plateia quase
sente o cheiro de terra molhada que os personagens pisam.
Agnes, a mulher deste William Shakespeare por meio da
qual acompanhamos tudo, projeta um universo natural ligado à flotesta, às
matas, às águas, aos componentes deste universo que tornam quase táctil as
imagens do filme. Estamos em Stradford-upon-Avon mesmo, de verdade, sob uma luz
filtrada pela umidade do clima e o suor de sua gente. Precisamos nos acostumar
a este ambiente nem um pouco asséptico como são os nossos habitats deste novo e
conturbado século atual, precisamos esquecer a tecnologia, bites e algoritmos,
telas e recursos médicos. Ali se nasce e se morre com uma insegurança que faz
da vida orgânica um imperativo muito mais poderoso. É curioso que tantos anos
depois, uma variação orgânica como o câncer ainda possa ter o mesmo efeito –
independente do avanço da medicina disponível. O filme não me deixa esquecer de
Titina, Carlão, Augusto. Certas conexões lembram nossa imutável vulnerabilidade.
Mas é preciso voltar ao filme. Porque há outros
elementos. Nesse desenvolver sem pressa – tão ao contrário da febre de filmes
atuais que espelham a loucura da era Trump com montagens que parecem
liquificador de ideias, sem demérito para elas – em “Hamnet” vamos nos aproximando
com vagar do momento crucial em que uma dor insuportável se converte em um
texto, uma composição, uma imagem, uma filmagem, um desenho destinado a
sensibilizar uma humanidade inteira durante séculos. E a servir de seu espelho para
sempre.
Mas o filme não se atropela nunca. Sua forte carga de
elementos orgânicos, de uma vida pre-tecnologia, fornece material suficiente
para se entender que a arte, para surgir, precisa ser como um prédio edificado
aos poucos, com o suor de cada dia, a peleja de cada batalha, a derrota de uns,
a insegurança de tantos, o inimaginável se fazendo realidade – quem pode com o
imponderável? Nisso, entra o elemento do tormento do artista – e novamente eu
lembrei de Titina.
Titina jovem, na certeza de querer seguir o caminho escolhido,
contra todas a falta de chão que esse caminho apontava. Estou falando do
momento – uma cena curta, mas intensa como ela – quando Shakespeare (e não
pense que ele é tratado assim com o peso deste nome no filme, nada disso) se
atordoa, se contorce, se lamenta e se aterroriza por não conseguir fazer nada
na vida a não ser escrever algo que nem
mesmo ele sabe o que é exatamente ou a que se destina. Um criador de textos
artísticos destinados a traduzir ou pelo menos espelhar os dilemas humanos vivendo
no cenário de uma vida rural, numa família convencional endividada, forjado
para seguir a tradição e se manter no caminho do que é aceito se ver nesta
condição é uma dor sem tamanho. Ocorre que, independente do período, até hoje
o criador está sujeito a essa condenação
prévia, a esse estranhamento social que o reduz a nada. Titina sofreu com isso,
quando mais jovem – e ali novamente ela estava na sala comigo diante do filme
de Chloe Zhao, a cineasta magnífica que já havia me ensimesmado com seu “Nomandland”,
tão real e pungente filme semidocumental sobre as pessoas de quem o capitalismo
tomou até o teto, o lar convencional.
“Hamnet” é o tipo do filme que renova, mais que nosso
fascínio, nossa crença no poder de elaboração do cinema. Depois de ficar um ano
afastado das salas de exibição, voltei diante de marcos como “O Agente Secreto”,
mas este filme, com sua sensibilidade algo Manoel de Barros, foi como que o
selo do retorno definitivo. Uma recriação que ignora a verdade histórica para
construir uma possibilidade narrativa em que a origem de uma grande obra, o
Hamlet consagrado, é simulado com base em fiapos de fatos. Um atrevimento
artístico, consciente de que o resultado dessa busca pode ser tão mais forte
que não faz sentido prender-se ao real – ainda mais neste caso, em que não há
um real comprovável e onde o resto, como diria o próprio, é silêncio.
“Hamnet” faz sua própria construção possível, arrancando lirismo
filtrado em lágrimas a partir de uma dor cruel, o próprio filme
comentando o custo e maravilha de se transformar o insuportável –
no caso, o desconhecido – em princípio da arte.
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