quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A NOVA POROROCA VISUAL DE ARI ASTER

 


Como meus filhos me mostraram o quanto eu estou por fora e como isso vai dar no novo “Eddington”


Adolescentes, meus filhos sempre souberam o quanto eu gosto de cinema. E como bons filhos de 14 a 17 anos, tinham um prazer especial em mostrar o quanto eu, tão cheio de repertório em cinema, não conhecia tudo. Aliás, não conhecia coisas tipo essenciais. Como você não conhece “Midsommar” – pareciam dizer? Graças a essa dinâmica pais-e-filhos com pequenos desafios e ligeiras provocações, quando os mais jovens precisam mostrar aos mais velhos que eles não sabem tudo e precisam ouvir quem chegou depois, tomei conhecimento deste filme e do seu diretor, Ari Aster – igualmente cultuado por eles.

Eu com meus Roman Polanski, Martin Scorsese, Stanley Kubrick, Spielberg e outros velhos manjados, quando muito chegando a Christopher Nolan – e eles rindo de mim por não ter ideia de quem  é este diretor norte-americano especialista em filmes que misturam terror (adolescentes amam terror, é sabido) com questões psicológicas de profundidades abissais. Eles me esnobaram e eu gostei. E fui ver o tal “Midsommar”. Descobri um filme muito bem construído sobre um grupo de americanos que aceita o convite para visitar uma estranha comunidade sueca onde rituais pra lá de esquisitos são realizados e sobre o quais paira um clima de mistério e imprevisibilidade que contamina tudo e todos, sob o sol do solstício de verão escandinavo.

É algo muito bem realizado, uma tensão que vai se fazendo aos poucos, numa escalada de surpresas ascendente e da qual não dá pra voltar atrás. Não é terror adolescente gritado na escuridão, é tudo ao sol rural, numa atmosfera tão idílica quanto incômoda, de difícil descrição. Excelente para o cinema, este produto meio arte meio experimentação tão sensorial. “Midsommar”, como ocorre com os bons filmes, faz você sentir a experiência: o olhar e a audição são dutos para entrar neste mundo à parte construído por um diretor, um roteirista, cenógrafos, fotógrafos, atores, uma equipe inteira vivendo em torno de uma proposta estética e, quando bem sucedida, até transcendente.

Depois assisti também a “Hereditário”, o primeiro longa de Ari Aster, naturalmente com um impacto menor do que o filme seguinte – a gente vai assimilando as manhas narrativas e as opções visuais dos cineastas.

E chegamos a ontem à noite: catando nas programações um filme para continuar com minha maratona cinematográfica desses dias de janeiro – depois de ver “O agente secreto”. “Valor sentimental”, “Foi apenas um acidente” e “Nouvelle Vague” – esbarrei em “Eddington”, o título puro e simples na grade em branco e preto que o Cine Brasília publica no Instagram. Fui fuçar e, surpresa, descobri que se tratava do novo filme de Ari Aster, após o terceiro, “Beau tem medo”, que foi meio mal recebido e a que eu não assisti (mas sigo curioso).

Chamei minha filha Cecília na hora porque sei o quanto ela aprecia os filmes de Ari Aster, está sempre pronta a desvendar os truques narrativos que ele usa, a desfrutar da proposta de cinema que ele entrega. Só não chamei Bernardo porque ele não mora mais em Brasília, mas se tiver chance vejo de novo o filme na companhia dele pra ver sua reação. Ao filme:

“Eddington” é uma pororoca audiovisual sem qualquer limite que mistura temas como negacionismo, antivacina, neofascismo e antifascismo, pandemia e rancores pessoais, enfermidade mental com teorias conspiratórias, isolacionismo com o caso George Floyd, culto às armas com disputa política rasteira, fake news com povos originários, tudo numa pequena cidade que é visivelmente um microcosmo da América atual e de sua loucura também sem fronteiras. Tudo isso da maneira mais caótica e sem freios que se puder imaginar. Especialmente após a primeira hora e meia de projeção – que é quando o filme de fato acontece.

O que houve ontem em Mineapollis – novamente, a mesma cidade onde George Floyd foi morto por policiais, desencadeando uma onda de protesto que chega à cidade do filme de Aster de forma inicialmente caricata e depois com toda sua potência – é um exemplo e um reflexo da realidade que o quadro geral que “Eddington” instala na tela do cinema. Tudo a ver o fato mais recente e o que este cinema traz.

O filme é confuso, estabanado e exagerado, mistura temas e detona um pouco de todos eles sem se deter muito em nenhum, solta fios desencapados que ora irritam o espectador com um campo minado de dados soltos mas também o alertam para o inexpugnável propósito por trás de todo aquele furacão cinematográfico. Não tem como não ter sido pensado assim. O que parece falho e pode incomodar pelas soluções evidentemente despreocupadas com qualquer fazer sentido na verdade é o objetivo que recobre tudo.




Não assista a “Eddintgon” esperando controlar a narrativa que lhe chega aos olhos – mesmo porque seu par de olhos e de ouvidos não será suficiente, assim como seu cérebro limitado, para dar conta de todos os estímulos simultâneos. Há cenas em que você parece precisar se decidir entre ouvir e entender o diálogo (ainda mais lendo legendas) ou prestar atenção numa informação que vem de um ruído de fundo (mas não tão fundo que possa ser desimportante) ou ainda ler textos nas telinhas de celulares ou similares que compõem os quadros das sequências. A questão é: esqueça o cerebral, viva o sensorial puro e simples e siga adiante – o que o filme quer lhe mostrar e dizer, a provocação que ele pretende fazer, precisa dessa mistura doida e sem barreiras. Este pandemônio é a própria essência do que o filme representa, a balbúrdia é seu idioma particular. Nada mais distante da apreensão organizada de forma crescente mas escalonada em “Midsommar”, mas ainda é Aster com seu arsenal tão particular fazendo a diferença.

“Eddington” é um tratado cinematográfico sobre a loucura americana atual, sob Trump e as polarizações exacerbadas – não menos do que no filme, se a gente pensar bem. Uma sinfonia do caos que rastreia e expõe em forma de metáfora visual o rumo que o mundo tomou, a reboque de tecnologias que tribalizam, líderes esquentadinhos que agem como crianças mimadas, uma extrema direita que segura a cruz cristã numa mão e a metralhadora de matar bandido na outra. Não à toa, o filme só realmente acontece – e a partir daqui, não para mais nem pra respirar – após um massacre que ocorre depois de pelo menos uma hora de projeção. Você pensa que o filme vai acabar mas não – está apenas começando. Penso em Glauber Rocha e em Quentin Tarantino, em Roberto Rodriguez e “A Batalha de Argel”.

Deste ponto em diante, quanto menos previsibilidade houver – e há – melhor o filme fica. Quando mais confuso, mais rico. Quanto mais disparatado, mais coerente. É algo que vai surgindo em meio às cinzas do que resta na tela, onde até uma citação de “Rambo” soa, acredite, natural. Um evento, um teatro de José Celso Martinez em outra matriz, a Roda Viva planetária do nosso tempo, banhada em sangue. Um filme que, acredito, vai virar cult em dez segundos.

Que bom que meus filhos me mostraram o quanto eu não sou de nada – e me apresentaram a Ari Aster.

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