quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

HAMNET E AS DORES DO MOMENTO


A força avassaladora do teatro como expressão humana e o efeito devastador de uma morte inesperada. Entre dezembro e janeiro, convivi, como nunca esperava, jamais poderia prever, com esses dois elementos. O câncer que nos levou Titina abalou cada uma das células orgânicas e espirituais de quem conviveu com ela, sobretudo amigos e familiares mais próximos. Ao final de uma despedida que nunca poderia passar pela nossa mais remota  imaginação – ao menos antes dos nove meses entre o diagnóstico e seu falecimento – veio o vazio misturado com a constatação de uma ausência retumbante, as perguntas habituais nessas ocasiões, a busca por explicações menos rasteiras possíveis e, por fim, também sem a menor previsão, veio este filme. Assisti a “Hamnet” absolutamente enlutado. E não poderia existir neste momento nada tão significativo a empacotar tudo o que vivemos entre dezembro e as duas primeiras semanas de janeiro de 2026.

“Hamnet” foi um obituário sublime. Se as pessoas que não passaram por nada semelhante recentemente vertem suas lágrimas durante a exibição, imagine quem acabou de ver um ataque orgânico consumir a vida espiritual encarnada de uma pessoa tão intensa quanto Titina. Avalie, imagine. Como pode aparecer justo agora um filme que junta a morte precoce de uma criança com a gênese provável – só provável, mas aqui a verdade histórica é imensamente menos importante do que a construção artística – de um marco da cultura humana? A despedida de Titina e um filme que sai da vida comum para mostrar o apelo irrefreável da construção teatral coincidindo no mesmo mês, do mesmo ano que começa...

Isto tudo é para dizer que não havia como assistir a este “Hamnet” sem a colossal condição pessoal a que o espectador aqui subumbe sem salvação. Dito isso, há mais – há muito, há tanto. Assim escrito parece que “Hamnet” é um didático manual visual sobre como se faz uma obra de arte ou do que ela pode resultar. É isso sim, mas nunca dessa forma direta. É tudo muito circular no filme, tudo parte do chão da vida e não de qualquer elevação intelectual estabelecida a priori. “Hamnet” exala vida orgânica, você no plateia quase sente o cheiro de terra molhada que os personagens pisam.

Agnes, a mulher deste William Shakespeare por meio da qual acompanhamos tudo, projeta um universo natural ligado à flotesta, às matas, às águas, aos componentes deste universo que tornam quase táctil as imagens do filme. Estamos em Stradford-upon-Avon mesmo, de verdade, sob uma luz filtrada pela umidade do clima e o suor de sua gente. Precisamos nos acostumar a este ambiente nem um pouco asséptico como são os nossos habitats deste novo e conturbado século atual, precisamos esquecer a tecnologia, bites e algoritmos, telas e recursos médicos. Ali se nasce e se morre com uma insegurança que faz da vida orgânica um imperativo muito mais poderoso. É curioso que tantos anos depois, uma variação orgânica como o câncer ainda possa ter o mesmo efeito – independente do avanço da medicina disponível. O filme não me deixa esquecer de Titina, Carlão, Augusto. Certas conexões lembram nossa imutável vulnerabilidade.

Mas é preciso voltar ao filme. Porque há outros elementos. Nesse desenvolver sem pressa – tão ao contrário da febre de filmes atuais que espelham a loucura da era Trump com montagens que parecem liquificador de ideias, sem demérito para elas – em “Hamnet” vamos nos aproximando com vagar do momento crucial em que uma dor insuportável se converte em um texto, uma composição, uma imagem, uma filmagem, um desenho destinado a sensibilizar uma humanidade inteira durante séculos. E a servir de seu espelho para sempre.  

Mas o filme não se atropela nunca. Sua forte carga de elementos orgânicos, de uma vida pre-tecnologia, fornece material suficiente para se entender que a arte, para surgir, precisa ser como um prédio edificado aos poucos, com o suor de cada dia, a peleja de cada batalha, a derrota de uns, a insegurança de tantos, o inimaginável se fazendo realidade – quem pode com o imponderável? Nisso, entra o elemento do tormento do artista – e novamente eu lembrei de Titina.

Titina jovem, na certeza de querer seguir o caminho escolhido, contra todas a falta de chão que esse caminho apontava. Estou falando do momento – uma cena curta, mas intensa como ela – quando Shakespeare (e não pense que ele é tratado assim com o peso deste nome no filme, nada disso) se atordoa, se contorce, se lamenta e se aterroriza por não conseguir fazer nada na vida a  não ser escrever algo que nem mesmo ele sabe o que é exatamente ou a que se destina. Um criador de textos artísticos destinados a traduzir ou pelo menos espelhar os dilemas humanos vivendo no cenário de uma vida rural, numa família convencional endividada, forjado para seguir a tradição e se manter no caminho do que é aceito se ver nesta condição é uma dor sem tamanho. Ocorre que, independente do período, até hoje o  criador está sujeito a essa condenação prévia, a esse estranhamento social que o reduz a nada. Titina sofreu com isso, quando mais jovem – e ali novamente ela estava na sala comigo diante do filme de Chloe Zhao, a cineasta magnífica que já havia me ensimesmado com seu “Nomandland”, tão real e pungente filme semidocumental sobre as pessoas de quem o capitalismo tomou até o teto, o lar convencional.

“Hamnet” é o tipo do filme que renova, mais que nosso fascínio, nossa crença no poder de elaboração do cinema. Depois de ficar um ano afastado das salas de exibição, voltei diante de marcos como “O Agente Secreto”, mas este filme, com sua sensibilidade algo Manoel de Barros, foi como que o selo do retorno definitivo. Uma recriação que ignora a verdade histórica para construir uma possibilidade narrativa em que a origem de uma grande obra, o Hamlet consagrado, é simulado com base em fiapos de fatos. Um atrevimento artístico, consciente de que o resultado dessa busca pode ser tão mais forte que não faz sentido prender-se ao real – ainda mais neste caso, em que não há um real comprovável e onde o resto, como diria o próprio, é silêncio.

“Hamnet” faz sua própria construção possível, arrancando lirismo 

filtrado em lágrimas a partir de uma dor cruel, o próprio filme 

comentando o custo e maravilha de se transformar o insuportável – 

no caso, o desconhecido – em princípio da arte.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A NOVA POROROCA VISUAL DE ARI ASTER

 


Como meus filhos me mostraram o quanto eu estou por fora e como isso vai dar no novo “Eddington”


Adolescentes, meus filhos sempre souberam o quanto eu gosto de cinema. E como bons filhos de 14 a 17 anos, tinham um prazer especial em mostrar o quanto eu, tão cheio de repertório em cinema, não conhecia tudo. Aliás, não conhecia coisas tipo essenciais. Como você não conhece “Midsommar” – pareciam dizer? Graças a essa dinâmica pais-e-filhos com pequenos desafios e ligeiras provocações, quando os mais jovens precisam mostrar aos mais velhos que eles não sabem tudo e precisam ouvir quem chegou depois, tomei conhecimento deste filme e do seu diretor, Ari Aster – igualmente cultuado por eles.

Eu com meus Roman Polanski, Martin Scorsese, Stanley Kubrick, Spielberg e outros velhos manjados, quando muito chegando a Christopher Nolan – e eles rindo de mim por não ter ideia de quem  é este diretor norte-americano especialista em filmes que misturam terror (adolescentes amam terror, é sabido) com questões psicológicas de profundidades abissais. Eles me esnobaram e eu gostei. E fui ver o tal “Midsommar”. Descobri um filme muito bem construído sobre um grupo de americanos que aceita o convite para visitar uma estranha comunidade sueca onde rituais pra lá de esquisitos são realizados e sobre o quais paira um clima de mistério e imprevisibilidade que contamina tudo e todos, sob o sol do solstício de verão escandinavo.

É algo muito bem realizado, uma tensão que vai se fazendo aos poucos, numa escalada de surpresas ascendente e da qual não dá pra voltar atrás. Não é terror adolescente gritado na escuridão, é tudo ao sol rural, numa atmosfera tão idílica quanto incômoda, de difícil descrição. Excelente para o cinema, este produto meio arte meio experimentação tão sensorial. “Midsommar”, como ocorre com os bons filmes, faz você sentir a experiência: o olhar e a audição são dutos para entrar neste mundo à parte construído por um diretor, um roteirista, cenógrafos, fotógrafos, atores, uma equipe inteira vivendo em torno de uma proposta estética e, quando bem sucedida, até transcendente.

Depois assisti também a “Hereditário”, o primeiro longa de Ari Aster, naturalmente com um impacto menor do que o filme seguinte – a gente vai assimilando as manhas narrativas e as opções visuais dos cineastas.

E chegamos a ontem à noite: catando nas programações um filme para continuar com minha maratona cinematográfica desses dias de janeiro – depois de ver “O agente secreto”. “Valor sentimental”, “Foi apenas um acidente” e “Nouvelle Vague” – esbarrei em “Eddington”, o título puro e simples na grade em branco e preto que o Cine Brasília publica no Instagram. Fui fuçar e, surpresa, descobri que se tratava do novo filme de Ari Aster, após o terceiro, “Beau tem medo”, que foi meio mal recebido e a que eu não assisti (mas sigo curioso).

Chamei minha filha Cecília na hora porque sei o quanto ela aprecia os filmes de Ari Aster, está sempre pronta a desvendar os truques narrativos que ele usa, a desfrutar da proposta de cinema que ele entrega. Só não chamei Bernardo porque ele não mora mais em Brasília, mas se tiver chance vejo de novo o filme na companhia dele pra ver sua reação. Ao filme:

“Eddington” é uma pororoca audiovisual sem qualquer limite que mistura temas como negacionismo, antivacina, neofascismo e antifascismo, pandemia e rancores pessoais, enfermidade mental com teorias conspiratórias, isolacionismo com o caso George Floyd, culto às armas com disputa política rasteira, fake news com povos originários, tudo numa pequena cidade que é visivelmente um microcosmo da América atual e de sua loucura também sem fronteiras. Tudo isso da maneira mais caótica e sem freios que se puder imaginar. Especialmente após a primeira hora e meia de projeção – que é quando o filme de fato acontece.

O que houve ontem em Mineapollis – novamente, a mesma cidade onde George Floyd foi morto por policiais, desencadeando uma onda de protesto que chega à cidade do filme de Aster de forma inicialmente caricata e depois com toda sua potência – é um exemplo e um reflexo da realidade que o quadro geral que “Eddington” instala na tela do cinema. Tudo a ver o fato mais recente e o que este cinema traz.

O filme é confuso, estabanado e exagerado, mistura temas e detona um pouco de todos eles sem se deter muito em nenhum, solta fios desencapados que ora irritam o espectador com um campo minado de dados soltos mas também o alertam para o inexpugnável propósito por trás de todo aquele furacão cinematográfico. Não tem como não ter sido pensado assim. O que parece falho e pode incomodar pelas soluções evidentemente despreocupadas com qualquer fazer sentido na verdade é o objetivo que recobre tudo.




Não assista a “Eddintgon” esperando controlar a narrativa que lhe chega aos olhos – mesmo porque seu par de olhos e de ouvidos não será suficiente, assim como seu cérebro limitado, para dar conta de todos os estímulos simultâneos. Há cenas em que você parece precisar se decidir entre ouvir e entender o diálogo (ainda mais lendo legendas) ou prestar atenção numa informação que vem de um ruído de fundo (mas não tão fundo que possa ser desimportante) ou ainda ler textos nas telinhas de celulares ou similares que compõem os quadros das sequências. A questão é: esqueça o cerebral, viva o sensorial puro e simples e siga adiante – o que o filme quer lhe mostrar e dizer, a provocação que ele pretende fazer, precisa dessa mistura doida e sem barreiras. Este pandemônio é a própria essência do que o filme representa, a balbúrdia é seu idioma particular. Nada mais distante da apreensão organizada de forma crescente mas escalonada em “Midsommar”, mas ainda é Aster com seu arsenal tão particular fazendo a diferença.

“Eddington” é um tratado cinematográfico sobre a loucura americana atual, sob Trump e as polarizações exacerbadas – não menos do que no filme, se a gente pensar bem. Uma sinfonia do caos que rastreia e expõe em forma de metáfora visual o rumo que o mundo tomou, a reboque de tecnologias que tribalizam, líderes esquentadinhos que agem como crianças mimadas, uma extrema direita que segura a cruz cristã numa mão e a metralhadora de matar bandido na outra. Não à toa, o filme só realmente acontece – e a partir daqui, não para mais nem pra respirar – após um massacre que ocorre depois de pelo menos uma hora de projeção. Você pensa que o filme vai acabar mas não – está apenas começando. Penso em Glauber Rocha e em Quentin Tarantino, em Roberto Rodriguez e “A Batalha de Argel”.

Deste ponto em diante, quanto menos previsibilidade houver – e há – melhor o filme fica. Quando mais confuso, mais rico. Quanto mais disparatado, mais coerente. É algo que vai surgindo em meio às cinzas do que resta na tela, onde até uma citação de “Rambo” soa, acredite, natural. Um evento, um teatro de José Celso Martinez em outra matriz, a Roda Viva planetária do nosso tempo, banhada em sangue. Um filme que, acredito, vai virar cult em dez segundos.

Que bom que meus filhos me mostraram o quanto eu não sou de nada – e me apresentaram a Ari Aster.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

DOIS FILMES, UM VEREDICTO E NENHUMA CERTEZA

 


Foram duas experiências opostas – e contra a corrente dominante das expectativas e avaliações. Depois de “O agente secreto”, meu retorno aos cinemas após um ano distante se completou esses dias com “Foi apenas um acidente” e “Nouvelle Vague”. Ao contrário de todo mundo, não tive uma boa fruição com o primeiro. E contra o que se tem dito do segundo, gostei às pampas de cada minuto – veria novamente com satisfação. Vamos aos fatos.

Ouvi elogios soltos sobre o filme iraniano coproduzido pela França. Aquele cartaz com aquela van no meio do nada é sempre uma sugestiva imagem cinematográfica que quebra nossa indiferença. Mas não fui além disso – nada li sobre o filme, assim como havia feito com “O agente secreto”. Apenas entrei na sala e meio que disse à tela: vai lá, manda ver, vou tentar navegar no que você me entregar, a experiência é soberana.

Não costumo assistir a filmes sem antes ter lido minimamente sobre eles. Nem me incomoda muito que antecipem boa parte do que vou ver – a visão pessoal mesmo, lá na sala escura, é maior que tudo o que foi dito. Você pode entrar com uma expectativa gigantesca e assistir a um filme-rato que só parecia uma montanha. Ou o contrário. E acredito muito nos critérios de cada um: construir uma filmografia pessoal é uma obra de anos de sensibilidade feita à base de tijolinhos grudados a cada sessão, cada fruição específica. Respeitando a história de como cada um descobriu, ficou encantado, aproveitou ao máximo, irritou-se ou maravilhou-se com os filmes a que assistiu.

Então já posso dizer: minha baça opinião sobre “Foi apenas um acidente” provavelmente eu vou conhecer mesmo é à medida que escrevo isso aqui, porque não é nada estranho pra mim descobrir minhas próprias avaliações enquanto caço palavras para construir uma definição. E não terá sido diferente do que foi dito sobre o filme – sim, após vê-lo, fui checar o que estão dizendo de fato sobre ele. Encontrei uma miríade de interpretações mas todas, TODAS as que li, rendendo glórias ao filme. Muito pela absurda e impressionante condição em que foi feito, praticamente às escondidas, para que cineasta, equipe, técnicos, atores não terminassem nas masmorras do regime teocrático iraniano. Descobri, após ver o filme (e isso faz muita diferença) que “Foi apenas um acidente” foi feito na clandestinidade. Você consegue imaginar um filme – e ainda mais um filme como este, rodado praticamente todo em externa – feito às escondidas? O diretor, Jafar Panahi, deve estar na França após condenado no Irã por ter feito outros filmes no mesmo tom de denúncia.

Já estou misturando tudo. É preciso voltar e organizar:

1.Como disse, entrei na sala sem saber quase nada sobre “Foi apenas...”.

2.Como também disse, é raro eu me atrever a fazer isso – uma informação por mínima que seja me situa muito melhor, sinto necessidade.

3.Sem ter lido nada sobre o filme, não sabia sequer que é um típico filme político de resistência iraniana – embora, claro, pelas próprias imagens de divulgação ficasse claro que era algo passado entre o Afeganistão e o Iraque. E certamente muito político.

4.Com isso, gastei energia em buscar me certificar de informações que o filme não entrega de primeira – como o local da história. As roupas e o jeito ocidentalizado da personagem que é uma fotógrafa me deixou desconfiado de que poderia não ser o Irã. Fui meio fundamentalista, perdão. Mas mantive a dúvida até o final.

5.Com isso, fiquei desatento a algo importantíssimo, que é o uso do som, indicativo que leva ao conflito inicial: um homem que foi torturado identifica seu torturador na oficina mecânica onde trabalha apenas por reconhecer o som da perna artificial usada por ele.

Isso detona tudo e o filme acontece, até pra mim que nada li antes. O torturado sequestra o torturador – o que, no início parece algo de uma violência sem igual, mas os sinais estão trocados e essa é uma das graças do filme – e decide enterrá-lo vivo.

Mas brota a dúvida, e a dúvida é a mãe do filme, seu fulcro principal. Todas as sequencias dentro da van, pra cima e pra baixo, os imprevistos, o vai-e-vem muitas vezes atrapalhado que vem em seguida e se estende pelo filme inteiro é um desenvolvimento audiovisual desta dúvida: afinal, o homem é ou não o torturador? Apenas um som suspeito é capaz de garantir sua identidade e valer essa vingança mortal?  Sim, porque nenhum dos torturados viu claramente o rosto do seu torturador – razão pela qual o mecânico que primeiro desconfiou tem que sair reunindo outros torturados para ter certeza.

Não há certeza. Há dúvida. Um torturado tem o direito de se vingar de quem o torturou se não tem certeza de que ele é ele mesmo? A diferença está aí, entre aquele grupo de pessoas meio estabanadas,  completamente traumatizados pelo passado de violência, e o homem em julgamento improvisado. Claramente se estabelece a diferença entre eles – e, para além da questão política – é isso o que recobre de nobreza humana os torturados. Eles se permitem ter dúvida, ainda que isso os incomode tremendamente. A ética deles está ali, toda ali. Nisso, é um ótimo filme, sim – e, como lida com uma situação política que os americanos adoram odiar, certamente vai levar o Oscar que poderia ir pra “O agente secreto”, meu palpite. O peso político é mais forte do que a densidade cinematográfica mas a gente sabe que aquele costuma prevalecer sobre este nessas premiações do grande cinema mundial. Falando nisso, eu sequer sabia que “Foi apenas...” ganhou a Palma de Ouro mais recente.

Só que, pra mim, como viciado em cinema que retorna às salas após um ano afastado, foi demais o arrastar daquela situação por vezes absurda – mas tudo coerente dentro do filme, e de forma inclusive a enriquecê-lo. Acontece muito mais do que se espera a partir deste plot inicial. São novas situações por onde escapa toda a nossa humanidade, seja no Irã ou em Santa Catarina. Mas é um filme difícil de ver no sentido de, ainda que tentando aqui e ali soar leve, ser sempre muito cru. Há uma cena gigantesca de um plano parado: um homem amarrado a uma árvore, vendado, enquanto o que se diz em torno dele contém toda uma epopeia de violência política. É uma grande cena, tanto mais gigantesca quanto mais parada – a imobilidade da dor que ali atinge a todos.

Dito isso, será que eu me enganei de gostei bastante e “Foi apenas...”? Vou fazer como o filme, deixar no ar. Talvez eu não estivesse preparado. Como alguém que foi privado de alimentação durante um mês e tem uma indigestão ao comer o primeiro e exagerado prato de comida. O fato é que, como fruição – e o cinema é múltiplo, há gêneros e gêneros, possibilidades e experimentações as mais vastas, além do convencional puro e simples – eu fiquei achando que “Foi apenas..” tá meio superestimado.


Vamos a “Nouvelle Vague” que de superestimado não tem nada. Esperava-se que o filme, uma reconstrução do momento em que Jean-Luc Godard e companhia fundiam uma nova linguagem cinematográfica quebrando velhas convenções do cinema francês e mundial, fosse ele também um filme à moda do novo cinema francês dos anos 60.

Ah, sim, digo isso porque neste caso li um pouco sobre o filme antes de vê-lo, no telão maravilha do Cine Brasília, pra onde enfim também retornei. Ainda bem que fui prevenido pelo pouco que li – eu também poderia ter caído nesta armadilha de esperar um filme-experimento à la Godard. A queixa geral era de decepção, porque “Nouvelle Vague”, o filme, é bem  convencional, tão certinho, tão americano, nada tendo a ver com as rupturas do movimento que o inspirou.

Primeiro acho que hoje em dia não faz sentido algum evocar as rupturas do “Acossado”, que é o filme cuja gravação e edição é reconstituída em “Nouvelle Vague”: já foi tudo absorvido, a linguagem do cinema mundial é uma bocona aberta que sabe muito bem incorporar cada novidade que cada novo movimento coloca nas telas. Não iria impactar nada. A opção do diretor Richard Linklater, cuja folha corrida inclui coisas convencionais como a trilogia iniciada com “Antes do amanhecer” e até o filme-chiclete “Escola do Rock”, foi, à custa de um clássico branco e preto e de um padrão quadrado (4X3), contar sua história da forma mais tradicional. E quer saber? Funciona que é uma beleza. Pra mim foi um passeio descomplicado sobre a forma como o enfant terrible Godard e seus amigos, mais ele que seus amigos, meteu os peitos contra o que não era permitido ou esperado e fez seu filme da maneira mais desconcertante possível. Hoje sabemos, estamos bestas de saber, sobre a mudança de rumos que “Acossado” provocou. Ali, na hora de conceber, planejar (?!), filmar, editar, a história era outra.

E se o filme feito sobre este filme opta por usar justamente os padrões convencionais que o filme e o movimento homenageado por ele contestam em outro momento histórico, não deixa de ser uma ironia bem ao modo Godard.

Assistam, divirtam-se, abusem do bom humor e não esperem uma revolução mas sim uma bela fruição. 

ANTES DE TUDO

                                    O  Nordeste monotemático, restrito à seca, à violência e ao fanatismo, é a base de Octávio Santiago para...