segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

UM MINIDVD E DOIS PETARDOS DO ACERVO

Quando o acervo chama e há tempo dando sopa, eu vou a ele. Assim foi no fim de semana. Com um novo mimo da trecolândia eletrônica pedindo pra ser testado – um miniDVD player ótimo pra usar em viagens, porque cabe fácil na bagagem de mão mesmo – lá fui eu em busca de pelo menos dois títulos para pilotar o equipamento, limpar a mente, arejar o espírito, calibrar as pilhas da fruição cinematográfica.

Peguei uma reprise bem reprise mesmo, porque de um filme que não revia há pelo menos uns 15 anos, e uma novidade velha, que é como se pode chamar um desses títulos que fazem parte da obra de grandes diretores, que você tem em casa mas esquece ou não se dá conta. Coisa de colecionador que adquire o que está à venda onde der com medo de que aquilo suma e nunca mais esteja disponível – o que é bem frequente. E então aquele filme, aquele show, aquele documentário fica em casa esperando a hora certa de ser apreciado.

Vamos a eles. De uma caixa da Versátil com filmes do cineasta francês Claude Chabrol, pesquei “Ophélia”, filme de 1963 em que, como o título antecipa, a clássica história de Hamlet é sacada pelo diretor para uma reconstrução contemporânea. É algo elegante, de imagens tão compostas quanto uma equação do segundo grau, luzes e sombras sob medida para criar aquele clima de desconfiança que faz parte do tom conspirativo da obra original. O príncipe inconformado se torna o jovem Ivan e, como diz o título, há uma Ofélia – uma garota a quem ele atribui o papel – assim como a mãe e o tio, usurpadores do pai. Ivan, danado da vida, passa na frente de um cinema tosco e vê o cartaz do “Hamlet” estrelado por Lawrence Olivier. 

É o bastante pra se dar conta do paralelismo entre sua própria situação e a do atormentado jovem dinamarquês. Há sempre algo de podre num reino qualquer, seja lá, ali ou acolá. Só não entendi porque Chabrol recorreu à sua Ofélia sessentista para dar nome ao filme, já que ela não tem essa presença tão determinante na sua readaptação. Muito mais marcante é olhar sanguíneo da atriz italiana Alida Valli, que eu cismei de já ter temido antes – mas uma boa meia hora de pesquisa na internet acabou com minha ilusão de que a havia visto com destaque no navio de “...E la nave vá”, o filme mais operístico de Federico Fellini. Nada confirmado. Foi impressão falsa ou participação não creditada. O que importa é que ela faz picadinho de vidro moído do neo-Hamlet e seu entorno. Se for por aí, o filme deveria se chamar “Gertrudes”.
Sim, o DVD player foi aprovado na experiência, embora, por ser um mini-equipamento, eu tenha sentido falta de alguns pitocos – como o velho e bom “stop”. Tem não, viu? Mas a pessoa resolve dando um but seco, ou seja, abrindo a tampinha que fecha a parte onde o disco fica e roda. É bonitinho o equipamento. E funcional, à maneira miniaturizada dele. 

Vamos ao segundo filme, que foi “Lanternas Vermelhas”, aquela coisa que tomou conta das audiências bem no início dos anos 90 (91, segundo minhas pesquisas nos sites), com a descoberta no ocidente do chinês Zhang Yimou (escrito nesta ordem ou na ordem inversa, essa coisa tão a cara do mundo oriental). Houve uma onda desse cinema naquela época, quando vimos, além deste, títulos como “Adeus minha concubina”, “O tigre e o dragão”, “Viver” e alguns cujo nome me escapa. Assisti a um deles – um dos mais pungentes melodramas a que vi na vida, no Cine Brasília, quando aqui cheguei em 1995, que me moeu a alma. Saí tão realizado quanto devastado – sou fã de melodramas. 

Pausa aqui: é por isso que gosto de escrever sempre, não perder a prática. A busca das palavras fricciona a memória já capenga e os títulos e nomes esquecidos chegam, acenando as mãozinhas num desfile memorialístico. Sim, acabei de lembrar que filme era esse do final do parágrafo anterior: o grande “Amor e Sedução” (Jou Dou- 1990), do mesmo, veja só (isso eu não lembrava mesmo) Zhang Yimou, e com a mesma (lembrava menos ainda) Gong Li, a super-atriz oriental que estrela “Lanternas Vermelhas”, fazendo a estudante desvalida que precisa abandonar a universidade para virar a quarta esposa de um chinês ricaço nos anos 1920.
“Lanternas” é um estupor de uso de cores – vermelhões berrantes (berrantes mas à maneira oriental, entenda bem) em contraste com o cinza azulado cor de morte dos telhados do conjunto arquitetônico onde o tal ricaço mantém suas quatro esposas. Um harém silencioso e opressivo. Neste espaço algo big brother, elas se engalfinham com toda classe, os empregados ajudam a entornar o caldo, as intrigas banham tudo, uma joga as outras como as demais, nãos se sabe bem que terreno é este onde se pisa, e a jovem recém-chegada vê sua estabilidade psíquica escorrer pelas paredes daquelas construções cuja dureza é quebrada apenas pela claridade colorida das lanternas. 

Essas são acesas sempre numa das quatro casas onde o senhor passará a noite – nunca em todas elas. Há uma guerra de privilégios entre quatro mulheres praticamente escravizadas, num filme que nunca sai desse sufocante ambiente e que se aplica com destreza a fazer do seu cenário quase um quarto personagem – por vezes, mais destacado do que o próprio dono do pedaço, que só aparece assim, aos pedaços, poucas vezes integralmente. Porque o espaço ali, o conflito ali, a guerra não declarada é entre as quatro esposas cujas vidas são ditadas pelo efeito dessas lanternas. 

Um grande filme, uma coisa pictórica como poucas vezes se vê, concentrado muito fortemente na linguagem puramente visual, quase uma série de telas animadas escorrendo o sangue invisível dessa asfixia emocional que vem tanto de cima quando das laterais. Não lembrava da força desse filme e só de revê-lo numa tela tão pequena fico imaginando o quanto ele é devastador – no bom sentido – numa projeção convencional de cinema. 

Deu uma vontade absurda de ir atrás de “Amor e sedução”, mas deve ser bem difícil encontrar uma cópia. Streaming nem pensar, que o mercado desse segmento é bem volúvel, difícil de se apostar. Nessas horas vê-se o quanto um acervo físico é válido, contra todas as marés do descarte e desse falso sentimento de desapego que de correto virou só um modismo de ostentação contrária.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A SOCIOLOGIA PARALELA DE MENDONÇA FILHO


Meu filme preferido de Kleber Mendonça Filho segue sendo “Aquarius”, mesmo com toda a excelente repercussão de “O Agente Secreto”. É coisa minha, e sou devoto da religião segundo a qual cada um reage ao audiovisual com as armas que tem – a própria memória, o acervo particular de filme que foi formando ao longo da vida, características únicas de cada um, por aí. Sou mais pra cartesiano que pra subjetivo, ainda que seja um tanto quanto contemplativo. Minha mirada é flexível, sabe se curvar e sair do caminho habitual quando a proposta é boa, mas há elementos que prevalecem.

Pelo fato de haver estado muito em Recife nos anos 80, onde reside até hoje um amigo e sua família muito querida, e também por ter morado lá durante todo o 1984 (um dia Mendonça Filho, o cineasta, e não o político, argh, fará um filme passado em Recife naquele belo e intenso ano, tenho fé) favorecem minhas simpatias por tudo o que vem com a assinatura do cineasta pernambucano. Não é heresia dizer que todo pernambucano – recifense, então, nem se fala – se acha o centro do planeta. Eles são, do jeito deles. Em muitas circunstâncias a gente abaixa a cabeça como satélites menores. Kleber Mendonça Filho, com essa cinematografia tão rica e reveladora, vinda de lá e não do decantado centro-sul que durante milênios mandou nas nossas preferências estéticas, nos vinga e nos refestela. Viva Kleber. Mas os filmes me pegam de maneiras diferentes. Esse post é pra dizer isso – e diz.

Não vi “O som ao redor” em sala de cinema. Assisti em DVD, esse cineminha caseiro confortável mas incompleto – sempre, e especialmente neste tipo de cinema que Kleber estava trazendo. Talvez já por isso, por falta de imersão que só a sala escura pressupõe, minha objetividade brigou e ainda briga com “O som ao redor”. A aluvião de alusões soa como o turbilhão de um rio que me impede de alcançar a outra margem. Tenho que fazer um esforço para me conectar com o filme durante toda sua extensão. A referência refeita- e rarefeita – à cultura ancestral dos engenhos transplantada aqui para o ambiente urbano, que por efeito do tempo reforça a decadência de um poder falido e seus subprodutos numa rua de Setúbal, em Recife, nunca parece suficiente pra mim. Mas eu sou teimoso e sempre me proponho a rever mais uma vez. Só que agora não tem a mesma graça: já li tanto sobre o filme que a informação externa bloqueia a reconexão. Não é a mesma coisa.

“Aquarius” é um banquete cinematográfico que, a um espectador mais pro convencional como eu, alimenta, sacia e vitamina ao ponto de causar uma deliciosa indigestão. “Aquarius”, completão, cheio de referências ao Brasil da era Dilma, era uma vingança servida em prato quente, fervendo, de queimar a língua. O final, de uma catarse rara nas salas de cinema, fazia a gente sair da projeção sem sequer  pisar no chão. Era o nosso não ao abuso financeiro cujo charme publicitário passa por cima de tudo, com sua cara de bom moço ao qual é suicídio resistir. Se não conseguimos erguer esse anteparo na realidade, que pelo menos tenhamos a compensação no terreno da representação. E Kleber Mendonça Filho, com Clara e Sônia Braga, parece que funcionavam como antenas de um momento brasileiro, captando a insatisfação calada à força de tantos e tantos, jogando tudo de volta naquela tela de cinema invadida por um ninho de cupins.

“Bacurau” tem elementos de natureza pessoal que interferem na antena da percepção. Quem primeiro me falou desse filme, sem nome nem mais informações objetivas, foi minha mãe. Nas ligações regulares que faço para ela, disse que a cidade – Parelhas, RN, onde cresci e onde ela mora – estava toda agitada “por causa de uma coisa da Globo”. Era engraçado. Isso evoluiu para uma conversa de que o povo de Parelhas ia à padaria da esquina e encontrava... Sônia Braga comendo pão quentinho. Não demorou e ficou claro que aquilo eram os preparativos e gravações de “Bacurau”, que não foram feitas na sede do município mas no povoado da Barra, que na tela virou esse lugar pop-mítico que dá nome ao filme.

Fui ver “Bacurau” todo envolvido por esse zum-zum-zum. Dá pra contar com distanciamento e objetividade? E desde quando eu encaro o cinema com distanciamento e objetividade? Vamos lá. Veio algo diferente, novamente pouco comum no cinema brasileiro, Kleber nunca é convencional. Um filme que, molhado no tempero do cinema de gênero, soa pegajoso, telúrico e também resistência pura na tela do cinema. Havia metáforas a perder de vista, como sempre. Um estudo sobre a forma como certo segmento do mundo olha para outro segmento a quem se julga superior. Isso dito com tiros, armamento pesado, violência high-tech, diálogos casuais, situações surreais – suco de Kleber Mendonça Filho, aqui em parceria com Juliano Dornelles.  

Chega “Retratos Fantasmas”, que poderia ser só um filme-tampão, mas, mais curto, mais objetivo (aí, sim), mais evocativo do que alusivo, embora sempre funcionando como um comentário sobre os rumos do país, a partir da transformação quase assassina das realidades urbanas nas grandes cidade, foi muito além do que se propunha. Kleber Mendonça Filho não precisa ser quase épico para turbinar a carga dramática de suas histórias. Pode até recorrer a um tom quase intimista – como bem faz em sua narração em off ao longo de “Retratos” – e o efeito é o mesmo. Novamente, em “Retratos” a minha circunstância pessoal pesa muito: vivendo em Recife no ano de 1984 e visitando muito a cidade antes e depois, frequentei praticamente todas aquelas salas de cinema de rua que ele vai listando e relembrando ao longo do filme.

O primeiro filme a que assisti em Recife, em 1983, com meu amigo Ítalo, que tinha a generosidade de me oferecer essas experiências, foi “Caçadores da arca perdida” no cinema Veneza. Uma tela como eu nunca havia visto. Jamais esqueço daquela bola gigantesca rolando em direção a Harrison Ford numa das primeiras sequencias. No Veneza, aquela bola era quase concreta e eu estava logo à frente dela também.

Ninguém, nem mesmo o filme de Kleber Mendonça Filho, é capaz de expressar verdadeiramente o que era o Veneza: seus mármores, seu cheio (nossa!), suas poltronas confortáveis, sua sala de espera que lhe deixava em estado de graça antes da projeção, tudo, tudo. E nem vou falar do São Luiz, onde passei seis horas seguidas, sozinho, em pleno carnaval pernambucano,  assistindo a duas sessões de “Era uma vez na América”, o grande filme de Sérgio Leone que estava sendo lançado naquele momento, em 1984. Como também vou só citar rapidão uma sala menos pomposa, mas tão distante de meu cinema-poeira Rex, em Parelhas, o Moderno, onde eu e Ítalo vimos duas vezes seguida o assustador “O Dia Seguinte”, também em 1983. Sabe o fenômeno “Hair”, que no “Retratos” Kleber conta que lotou o Veneza por meses? Também vi, numa reprise naquele mesmo carnaval, mas no Art Palácio. Melhor parar por aqui.

Então “Retratos Fantasmas” é esta peça audiovisual à qual eu não tenho como assistir com distanciamento. Mais uma.

E o cinema me faz pensar que, mais do que um esteta da imagem, Kleber Mendonça Filho é um tipo alternativo de sociólogo. Um Gilberto Freyre renascido em um mundo em transição, muito incisivo no que se propõe a examinar, seja a destruição financeira dos centros urbanos, o pouco caso com países da “periferia” do mundo capitalista, a arrogância da especulação imobiliária ou a forma ardilosa como a ditadura militar entrava em todos os ambientes.

Por coincidência ou não, várias das incisões que ele fez passam pela carne das minhas memórias e experiências. Dificulta a avaliação, mas felicita o coração. Não posso reclamar

O AGENTE DAS ALUSÕES

 


Um filme poroso, vazado, cheio de vazios, carregado de alusões. Uma aventura da vida brasileira que nunca é direta na situação objetiva a que expõe o espectador. Uma construção narrativa que lhe obriga a, junto com o protagonista, reunir os pedaços de uma perseguição cujo fundo político jamais é formulado em termos precisos. O cinema se basta: em “O Agente Secreto”, é mais importante arquitetar uma atmosfera dramática do que fazer uma tradicional reconstituição histórica.

Nos acostumamos à reconstituição histórica, há tempos – e o curioso é que, ironicamente, nem isso nos livrou da sina desse retorno do recalcado que o bolsonarismo trouxe. Mas a questão aqui nem é bem essa: sim, o “filme de ditadura” já é praticamente um subgênero na tradição do cinema brasileiro, esse bicho que resiste bravamente. O que Kleber Mendonça Filho fez, diante dessa gaveta aberta com tantas amostras de qualidade indiscutível – “O que é isso, companheiro?”, “O ano em que meus pais saíram de férias”, “Ainda estou aqui”, entre tantos outros, sem falar em séries televisivas como “Anos Rebeldes” e “Os dias eram assim” – foi mudar o ângulo de observação.

Renovou o gênero à maneira dele – muito ele, recorrendo à sua memoriabilia quase tátil de tão vívida e cultivada, ao estranhamento estético que não deixa a tela esmorecer, à distensão narrativa que sem pressa vai construindo painéis tão calcados na vida rotineira e real, no enxerto de subsituações que conferem colorido àquele painel geral e o ajudam a se tornar ainda mais onipresente, dramático, sufocante ou até catártico como ocorre em “Aquarius”.

“O Agente Secreto” parte de uma perseguição e fuga enquadrada nos meandros menos manchetados da ditadura militar, fugindo do escopo de filme de história para investir numa aproximação quase antropológica da vida recifense – e por extensão, brasileira – no cenário não menos político de 1977. O cinema de Kleber Mendonça Filho tem esse despojamento em enquadrar a vida de toda hora, o momento não-importante, a palavra que não formula sentenças, a imagem que remete sem entregar embrulhado pra presente. Talvez só ele mesmo fosse capaz de abordar esse período da vida brasileira – esse passado que insiste em se fazer presente – dessa maneira nem alegórica nem proclamada. No limite entre o explícito e o sugerido. Haja entrelinhas, mas o cara é bom nisso.

Para o espectador do lado de cá, isso nem sempre é fácil. Meu filme preferido de Kleber Mendonça Filho é “Aquariuis”. Porque, embora entenda e no meu esforço consiga ler as entrelinhas, minha alma cartesiana pede algum grau de explicitação. Não vou brigar comigo mesmo na poltrona do cinema. Nem vou xingar o cineasta. Não é o caso, nem de uma coisa nem de outra. Mas preciso pontuar: algumas sequências de “O Agente Secreto” me deram certa gastura – elas não estragam o filme, claro, mas, a partir do fato de que estamos diante de uma produção que exige do telespectador uma entrega de natureza mais incômoda, na medida em que ele precisa desvendar o filme junto com seu protagonista, aborreceu.

Mendonça Filho não é nem um cineasta nem um roteirista de manual, qualquer um sabe disso. Mas não é difícil concordar com uma regra de manual das mais batidas: aquela segundo a qual cenas explicativas, que precisam de diálogos maiores para levar a quem assiste informações essenciais sobre a narração na tela, assim como dados adicionais que ele precisa ter para processar o que está a assistir, são as mais difíceis no roteiro e na montagem final.

A sequência que, exibida acho que mais de uma hora depois de iniciado o filme, enfim fornece dados para o expectador se situar melhor – melhor na medida que Kleber permite, dentro de sua opção narrativa – incomodou-me por essa dificuldade. Gosto de filmes que instalam uma tensão e a sustentam com maestria. Eu e todo mundo, certo? “Aquarius” faz isso de maneira arrebatadora. Não importar que enfie no curso principal de sua lógica uma série de situações paralelas que, como num solo de jazz, por mais que saiam da melodia principal sempre sabem voltar a ela e a enriquecer. Mas, nesta sequencia de “O Agente Secreto”, eu esqueci a música – o clima, a tensão, o fio desencapado que o filme jogou na tela ao se iniciar com aquele cadáver de três dias largado em frente a um posto de gasolina no carnaval.

A sequência demora, mas não é isso. A sequência é um vai-e-vem de plano e contraplano, numa sala fechada (no edifício e logo acima do Cine São Luiz, aquele palácio sentimental de Recife, mas nem isso ajuda), com uma carga de explicações liberadas aos poucos, nem por isso suficiente para preencher todas as lacunas (mas na lógica narrativa do filme isso é lógico), um empilhamento de dados que precisamos organizar junto com o protagonista. É uma cena necessária – ou pelo menos a entrega dessas informações. Mas num filme tão exposto ao sol de Pernambuco, tinha que ser numa sala vedada, ainda que na vida real este tipo de conversa se tenha neste tipo de lugar (embora a regra da vida dificilmente seja válida para o idioma do cinema)?

Na sequência final, tão amarga mas igualmente tão necessária também entramos numa sala limpa, quase branca, um ambiente tão pouco cinematográfico. Aqui o diálogo cresce, toma tudo, precisa ocupar todos os fotogramas. Soa mais necessário, mais coerente. Aqui o filme nos remete diretamente para a forma como um presente brasileiro distraído faz pouco caso de seu passado histórico ainda tão determinante. É uma leitura fundamental, um desfecho que, quanto mais desanimador, mais revelador. Mas, num ambiente entre quatro paredes mudas, há sempre o risco de uma investida algo Quentin Tarantino onde a tradição grita muito mais por um Glauber Rocha, um Nelson Pereira dos Santos, um Cacá Diegues. Nessas horas, sobra texto e falta cinema. Ninguém é perfeito, mesmo. Com cuidado pra não antecipar pra quem não viu o filme ainda, mas a imagem de um pen-drive jogado numa gaveta qualquer não seria mais expressiva  da negação que gera novos passados no presente? Ainda que a visão de um laboratório que substitui um cinema seja igualmente reveladora?

Dito isso, “O Agente Secreto”, que eu demorei pra assistir e até temi não conseguir ver no cinema (outra história, em outro post), é esse suspense incômodo onde certa falta de sintonia completa com o que vai na tela faz parte da experiência que o filme propõe. É uma nova e reveladora, importantíssima abordagem da antropologia urbana da nossa mais recente ditadura, que instala no centro da cena o abuso de  influência empresarial que os governo de farda impuseram, permitiam, incentivavam  e pressupunham. Algo que os mauricinhos do Partido Novo jamais gostariam que fosse visto nos cinemas.

Kleber Mendonça, Wagner Moura e esse elenco tão especial – dona Tânia, minha conterrânea incluída e destacada – reconstituíram não apenas os objetos, marcas, salas e repartições de 1977; eles de fato trouxeram para o brasileiro de hoje a representação completa do que era viver sob uma ditadura nas vielas do poder exercido ou numa delegacia de polícia, ou num departamento de universidade, ou na sala de reuniões de uma grande empresa. Isso não havia de forma tão forte no nosso audiovisual (“Os dias eram assim”, a série da Globo que o Brasil não quis ver, contém um pouco disso, pra fazer justiça, embora não seja o foco principal).

Como todo grande filme, que enche o peito e se propõe sem pequenez, é do tipo que deve, precisa, suporta ser visto mais de uma vez. Vamos voltar a ele.


ANTES DE TUDO

                                    O  Nordeste monotemático, restrito à seca, à violência e ao fanatismo, é a base de Octávio Santiago para...