segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
UM MINIDVD E DOIS PETARDOS DO ACERVO
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
A SOCIOLOGIA PARALELA DE MENDONÇA FILHO
Meu filme
preferido de Kleber Mendonça Filho segue sendo “Aquarius”, mesmo com toda a
excelente repercussão de “O Agente Secreto”. É coisa minha, e sou devoto da religião
segundo a qual cada um reage ao audiovisual com as armas que tem – a própria
memória, o acervo particular de filme que foi formando ao longo da vida,
características únicas de cada um, por aí. Sou mais pra cartesiano que pra subjetivo,
ainda que seja um tanto quanto contemplativo. Minha mirada é flexível, sabe se
curvar e sair do caminho habitual quando a proposta é boa, mas há elementos que
prevalecem.
Pelo
fato de haver estado muito em Recife nos anos 80, onde reside até hoje um amigo
e sua família muito querida, e também por ter morado lá durante todo o 1984 (um
dia Mendonça Filho, o cineasta, e não o político, argh, fará um filme passado
em Recife naquele belo e intenso ano, tenho fé) favorecem minhas simpatias por
tudo o que vem com a assinatura do cineasta pernambucano. Não é heresia dizer
que todo pernambucano – recifense, então, nem se fala – se acha o centro do
planeta. Eles são, do jeito deles. Em muitas circunstâncias a gente abaixa a
cabeça como satélites menores. Kleber Mendonça Filho, com essa cinematografia
tão rica e reveladora, vinda de lá e não do decantado centro-sul que durante
milênios mandou nas nossas preferências estéticas, nos vinga e nos refestela.
Viva Kleber. Mas os filmes me pegam de maneiras diferentes. Esse post é pra
dizer isso – e diz.
Não vi “O
som ao redor” em sala de cinema. Assisti em DVD, esse cineminha caseiro
confortável mas incompleto – sempre, e especialmente neste tipo de cinema que Kleber
estava trazendo. Talvez já por isso, por falta de imersão que só a sala escura
pressupõe, minha objetividade brigou e ainda briga com “O som ao redor”. A
aluvião de alusões soa como o turbilhão de um rio que me impede de alcançar a
outra margem. Tenho que fazer um esforço para me conectar com o filme durante
toda sua extensão. A referência refeita- e rarefeita – à cultura ancestral dos
engenhos transplantada aqui para o ambiente urbano, que por efeito do tempo
reforça a decadência de um poder falido e seus subprodutos numa rua de Setúbal,
em Recife, nunca parece suficiente pra mim. Mas eu sou teimoso e sempre me
proponho a rever mais uma vez. Só que agora não tem a mesma graça: já li tanto
sobre o filme que a informação externa bloqueia a reconexão. Não é a mesma
coisa.
“Aquarius”
é um banquete cinematográfico que, a um espectador mais pro convencional como
eu, alimenta, sacia e vitamina ao ponto de causar uma deliciosa indigestão. “Aquarius”,
completão, cheio de referências ao Brasil da era Dilma, era uma vingança
servida em prato quente, fervendo, de queimar a língua. O final, de uma catarse
rara nas salas de cinema, fazia a gente sair da projeção sem sequer pisar no chão. Era o nosso não ao abuso financeiro
cujo charme publicitário passa por cima de tudo, com sua cara de bom moço ao qual
é suicídio resistir. Se não conseguimos erguer esse anteparo na realidade, que
pelo menos tenhamos a compensação no terreno da representação. E Kleber Mendonça
Filho, com Clara e Sônia Braga, parece que funcionavam como antenas de um
momento brasileiro, captando a insatisfação calada à força de tantos e tantos,
jogando tudo de volta naquela tela de cinema invadida por um ninho de cupins.
“Bacurau”
tem elementos de natureza pessoal que interferem na antena da percepção. Quem
primeiro me falou desse filme, sem nome nem mais informações objetivas, foi
minha mãe. Nas ligações regulares que faço para ela, disse que a cidade –
Parelhas, RN, onde cresci e onde ela mora – estava toda agitada “por causa de
uma coisa da Globo”. Era engraçado. Isso evoluiu para uma conversa de que o
povo de Parelhas ia à padaria da esquina e encontrava... Sônia Braga comendo
pão quentinho. Não demorou e ficou claro que aquilo eram os preparativos e
gravações de “Bacurau”, que não foram feitas na sede do município mas no povoado
da Barra, que na tela virou esse lugar pop-mítico que dá nome ao filme.
Fui ver “Bacurau”
todo envolvido por esse zum-zum-zum. Dá pra contar com distanciamento e objetividade?
E desde quando eu encaro o cinema com distanciamento e objetividade? Vamos lá.
Veio algo diferente, novamente pouco comum no cinema brasileiro, Kleber nunca é
convencional. Um filme que, molhado no tempero do cinema de gênero, soa
pegajoso, telúrico e também resistência pura na tela do cinema. Havia metáforas
a perder de vista, como sempre. Um estudo sobre a forma como certo segmento do
mundo olha para outro segmento a quem se julga superior. Isso dito com tiros,
armamento pesado, violência high-tech, diálogos casuais, situações surreais –
suco de Kleber Mendonça Filho, aqui em parceria com Juliano Dornelles.
Chega “Retratos
Fantasmas”, que poderia ser só um filme-tampão, mas, mais curto, mais objetivo
(aí, sim), mais evocativo do que alusivo, embora sempre funcionando como um
comentário sobre os rumos do país, a partir da transformação quase assassina
das realidades urbanas nas grandes cidade, foi muito além do que se propunha.
Kleber Mendonça Filho não precisa ser quase épico para turbinar a carga
dramática de suas histórias. Pode até recorrer a um tom quase intimista – como bem
faz em sua narração em off ao longo de “Retratos” – e o efeito é o mesmo.
Novamente, em “Retratos” a minha circunstância pessoal pesa muito: vivendo em
Recife no ano de 1984 e visitando muito a cidade antes e depois, frequentei praticamente
todas aquelas salas de cinema de rua que ele vai listando e relembrando ao longo
do filme.
O
primeiro filme a que assisti em Recife, em 1983, com meu amigo Ítalo, que tinha
a generosidade de me oferecer essas experiências, foi “Caçadores da arca
perdida” no cinema Veneza. Uma tela como eu nunca havia visto. Jamais esqueço
daquela bola gigantesca rolando em direção a Harrison Ford numa das primeiras sequencias.
No Veneza, aquela bola era quase concreta e eu estava logo à frente dela
também.
Ninguém,
nem mesmo o filme de Kleber Mendonça Filho, é capaz de expressar verdadeiramente
o que era o Veneza: seus mármores, seu cheio (nossa!), suas poltronas confortáveis,
sua sala de espera que lhe deixava em estado de graça antes da projeção, tudo,
tudo. E nem vou falar do São Luiz, onde passei seis horas seguidas, sozinho, em
pleno carnaval pernambucano, assistindo
a duas sessões de “Era uma vez na América”, o grande filme de Sérgio Leone que
estava sendo lançado naquele momento, em 1984. Como também vou só citar rapidão
uma sala menos pomposa, mas tão distante de meu cinema-poeira Rex, em Parelhas,
o Moderno, onde eu e Ítalo vimos duas vezes seguida o assustador “O Dia
Seguinte”, também em 1983. Sabe o fenômeno “Hair”, que no “Retratos” Kleber
conta que lotou o Veneza por meses? Também vi, numa reprise naquele mesmo
carnaval, mas no Art Palácio. Melhor parar por aqui.
Então “Retratos Fantasmas” é esta peça audiovisual à qual eu não tenho como assistir com distanciamento. Mais uma.
E o cinema
me faz pensar que, mais do que um esteta da imagem, Kleber Mendonça Filho é um
tipo alternativo de sociólogo. Um Gilberto Freyre renascido em um mundo em
transição, muito incisivo no que se propõe a examinar, seja a destruição financeira
dos centros urbanos, o pouco caso com países da “periferia” do mundo
capitalista, a arrogância da especulação imobiliária ou a forma ardilosa como a
ditadura militar entrava em todos os ambientes.
O AGENTE DAS ALUSÕES
Um filme
poroso, vazado, cheio de vazios, carregado de alusões. Uma aventura da vida
brasileira que nunca é direta na situação objetiva a que expõe o espectador.
Uma construção narrativa que lhe obriga a, junto com o protagonista, reunir os
pedaços de uma perseguição cujo fundo político jamais é formulado em termos precisos.
O cinema se basta: em “O Agente Secreto”, é mais importante arquitetar uma
atmosfera dramática do que fazer uma tradicional reconstituição histórica.
Nos
acostumamos à reconstituição histórica, há tempos – e o curioso é que,
ironicamente, nem isso nos livrou da sina desse retorno do recalcado que o
bolsonarismo trouxe. Mas a questão aqui nem é bem essa: sim, o “filme de
ditadura” já é praticamente um subgênero na tradição do cinema brasileiro, esse
bicho que resiste bravamente. O que Kleber Mendonça Filho fez, diante dessa gaveta
aberta com tantas amostras de qualidade indiscutível – “O que é isso, companheiro?”,
“O ano em que meus pais saíram de férias”, “Ainda estou aqui”, entre tantos
outros, sem falar em séries televisivas como “Anos Rebeldes” e “Os dias eram assim”
– foi mudar o ângulo de observação.
Renovou
o gênero à maneira dele – muito ele, recorrendo à sua memoriabilia quase tátil
de tão vívida e cultivada, ao estranhamento estético que não deixa a tela esmorecer,
à distensão narrativa que sem pressa vai construindo painéis tão calcados na
vida rotineira e real, no enxerto de subsituações que conferem colorido àquele
painel geral e o ajudam a se tornar ainda mais onipresente, dramático,
sufocante ou até catártico como ocorre em “Aquarius”.
“O
Agente Secreto” parte de uma perseguição e fuga enquadrada nos meandros menos manchetados
da ditadura militar, fugindo do escopo de filme de história para investir numa
aproximação quase antropológica da vida recifense – e por extensão, brasileira –
no cenário não menos político de 1977. O cinema de Kleber Mendonça Filho tem
esse despojamento em enquadrar a vida de toda hora, o momento não-importante, a
palavra que não formula sentenças, a imagem que remete sem entregar embrulhado
pra presente. Talvez só ele mesmo fosse capaz de abordar esse período da vida
brasileira – esse passado que insiste em se fazer presente – dessa maneira nem
alegórica nem proclamada. No limite entre o explícito e o sugerido. Haja
entrelinhas, mas o cara é bom nisso.
Para o
espectador do lado de cá, isso nem sempre é fácil. Meu filme preferido de
Kleber Mendonça Filho é “Aquariuis”. Porque, embora entenda e no meu esforço consiga
ler as entrelinhas, minha alma cartesiana pede algum grau de explicitação. Não
vou brigar comigo mesmo na poltrona do cinema. Nem vou xingar o cineasta. Não é
o caso, nem de uma coisa nem de outra. Mas preciso pontuar: algumas sequências
de “O Agente Secreto” me deram certa gastura – elas não estragam o filme,
claro, mas, a partir do fato de que estamos diante de uma produção que exige do
telespectador uma entrega de natureza mais incômoda, na medida em que ele
precisa desvendar o filme junto com seu protagonista, aborreceu.
Mendonça
Filho não é nem um cineasta nem um roteirista de manual, qualquer um sabe disso.
Mas não é difícil concordar com uma regra de manual das mais batidas: aquela
segundo a qual cenas explicativas, que precisam de diálogos maiores para levar
a quem assiste informações essenciais sobre a narração na tela, assim como
dados adicionais que ele precisa ter para processar o que está a assistir, são
as mais difíceis no roteiro e na montagem final.
A sequência
que, exibida acho que mais de uma hora depois de iniciado o filme, enfim
fornece dados para o expectador se situar melhor – melhor na medida que Kleber
permite, dentro de sua opção narrativa – incomodou-me por essa dificuldade. Gosto
de filmes que instalam uma tensão e a sustentam com maestria. Eu e todo mundo,
certo? “Aquarius” faz isso de maneira arrebatadora. Não importar que enfie no
curso principal de sua lógica uma série de situações paralelas que, como num
solo de jazz, por mais que saiam da melodia principal sempre sabem voltar a ela
e a enriquecer. Mas, nesta sequencia de “O Agente Secreto”, eu esqueci a música
– o clima, a tensão, o fio desencapado que o filme jogou na tela ao se iniciar
com aquele cadáver de três dias largado em frente a um posto de gasolina no
carnaval.
A
sequência demora, mas não é isso. A sequência é um vai-e-vem de plano e
contraplano, numa sala fechada (no edifício e logo acima do Cine São Luiz,
aquele palácio sentimental de Recife, mas nem isso ajuda), com uma carga de
explicações liberadas aos poucos, nem por isso suficiente para preencher todas
as lacunas (mas na lógica narrativa do filme isso é lógico), um empilhamento de
dados que precisamos organizar junto com o protagonista. É uma cena necessária –
ou pelo menos a entrega dessas informações. Mas num filme tão exposto ao sol de
Pernambuco, tinha que ser numa sala vedada, ainda que na vida real este tipo de
conversa se tenha neste tipo de lugar (embora a regra da vida dificilmente seja
válida para o idioma do cinema)?
Na
sequência final, tão amarga mas igualmente tão necessária também entramos numa
sala limpa, quase branca, um ambiente tão pouco cinematográfico. Aqui o diálogo
cresce, toma tudo, precisa ocupar todos os fotogramas. Soa mais necessário,
mais coerente. Aqui o filme nos remete diretamente para a forma como um
presente brasileiro distraído faz pouco caso de seu passado histórico ainda tão
determinante. É uma leitura fundamental, um desfecho que, quanto mais
desanimador, mais revelador. Mas, num ambiente entre quatro paredes mudas, há sempre
o risco de uma investida algo Quentin Tarantino onde a tradição grita muito
mais por um Glauber Rocha, um Nelson Pereira dos Santos, um Cacá Diegues. Nessas
horas, sobra texto e falta cinema. Ninguém é perfeito, mesmo. Com cuidado pra
não antecipar pra quem não viu o filme ainda, mas a imagem de um pen-drive
jogado numa gaveta qualquer não seria mais expressiva da negação que gera novos passados no
presente? Ainda que a visão de um laboratório que substitui um cinema seja igualmente
reveladora?
Dito
isso, “O Agente Secreto”, que eu demorei pra assistir e até temi não conseguir
ver no cinema (outra história, em outro post), é esse suspense incômodo onde
certa falta de sintonia completa com o que vai na tela faz parte da experiência
que o filme propõe. É uma nova e reveladora, importantíssima abordagem da antropologia
urbana da nossa mais recente ditadura, que instala no centro da cena o abuso
de influência empresarial que os governo
de farda impuseram, permitiam, incentivavam e pressupunham. Algo que os mauricinhos do
Partido Novo jamais gostariam que fosse visto nos cinemas.
Kleber
Mendonça, Wagner Moura e esse elenco tão especial – dona Tânia, minha conterrânea
incluída e destacada – reconstituíram não apenas os objetos, marcas, salas e repartições
de 1977; eles de fato trouxeram para o brasileiro de hoje a representação completa
do que era viver sob uma ditadura nas vielas do poder exercido ou numa
delegacia de polícia, ou num departamento de universidade, ou na sala de reuniões
de uma grande empresa. Isso não havia de forma tão forte no nosso audiovisual (“Os
dias eram assim”, a série da Globo que o Brasil não quis ver, contém um pouco
disso, pra fazer justiça, embora não seja o foco principal).
Como
todo grande filme, que enche o peito e se propõe sem pequenez, é do tipo que
deve, precisa, suporta ser visto mais de uma vez. Vamos voltar a ele.
ANTES DE TUDO
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