segunda-feira, 4 de maio de 2026

O vermelho invisível

 


Não há cor vermelha em “O Estrangeiro”. Há muito verde e muito azul. E bastante amarelo-sol, em vários tons, do suave ao ofuscante. O mar de Argel, as piscinas públicas (para os franceses)... e no entanto o filme é rodado em branco e preto, do início ao fim. A coloração roubada às imagens, sempre caprichadas e meticulosamente construídas, do novo filme de François Ozon, é, acredite, de natureza saturada. Mesmo que a gente não veja as cores, elas estão lá, pintando com estardalhaço nossos cérebros de espectador. Como são berrantes as cores do branco e preto de “O Estrangeiro”. Especialmente o vermelho-sangue, jamais derramado. E que, talvez por isso mesmo, escorre pela tela inteira.

“O Estrangeiro”, baseado no célebre romance existencialista do franco-argelino Albert Camus, transforma em matéria visível o que não é possível verbalizar. E mostra, num manifesto visual paralelo, incômodos humanos – e em subescala, políticos – que as palavras não conseguem expressar. O cinema, conclui-se, é um ótimo espelho para a literatura terminal de Camus – e vai lembrar, não só pelo branco e preto e pela construção visual, mas pelo tom sempre abaixo da superfície, a adaptação de “O talentoso Ripley” de Patrícia Highsmith para a série Netflix.  

Como os habitantes de todo o sistema solar sabem, a novela de Camus, marco da literatura mundial, parte do caso de um francês que, no contexto da Argélia sob os grilhões da colonização francesa, mata friamente um argeliano, causando um choque tanto pelo crime quanto pela insensibilidade com o que o faz. Meursaut, o personagem, tem não só uma (falta de) sensibilidade mas também uma racionalidade à parte, que não cabe nem no mundo colonialista nem em qualquer outro.

Não temos, nem no livro nem o filme, uma historia de tribunal, nem um estudo psicológico, nem um ensaio histórico com base no cotidiano da desigualdade, nem um melodrama (ainda que uma mãe morta no início ofereça todos os ingredientes) e muito menos um romance (ainda que envolvimento e sexualidade provoquem o personagem). Ou, por outra: temos tudo isso mas não é nada disso o essencial.

O essencial aqui é como uma frase sem palavras: o vazio, na moldura contundente de um assassinato. A angústia existencialista, que decorre da falta de respostas para as perguntas mais elementares que asfixiam o cérebro humano, encontra no livro e no filme um veículo em que divisões sociais, paisagens solares e certa falsa inocência dos anos 30 modula anseios, dúvidas, desencanto, falta de sentido e em última instância desespero puro e simples. Mas sem grito, sem alarde, sem sangue explicitado.

Tudo se concentra em cinco tiros que esvaziam o tambor de uma arma de fogo, um corpo perfurado e um assassino congelado pelo torpor. Não há sangue, nem no rosto da mulher espancada pelo gigolô, nem na briga de rua que antecede os tiros, nem mesmo na face destruída do condenado nos porões da prisão enquanto espera a execução. O filme é em branco e preto e  o incômodo é multicor, mas como enxergar as fronteiras da (des)humanidade? Especialmente quanto o ferimento não é apenas na pele orgânica, mas por dentro de cada um?

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